Um jovem bondoso, calmo e dedicado à família. É assim que o quarto jihadista do grupo responsável pela execução de 27 pessoas na Síria, é descrito pela mãe, agora que a sua identidade foi revelada pela imprensa internacional. O Washington Post e o BuzzFeed revelaram esta semana que os serviços secretos norte-americanos e britânicos identificaram o radical do Estado Islâmico como sendo o britânico El Shafee Elsheikh. A mãe, Maha Elgizouli, falou pela primeira vez do jihadista, recordando-o como um filho "perfeito".

Era o nome que faltava. El Shafee Elsheikh é apontado como o quarto jihadista de um grupo do Estado Islâmico que ficou conhecido como "The Beatles" por ser constituído por quatro britânicos. Um ex-oficial das forças de combate ao terrorismo dos Estados Unidos e fontes ligadas à investigação confirmaram que Elsheikh foi identificado como o quarto rebelde desta célula - o último por identificar.

Jihadi John - a alcunha de Mohammed Emwazi - é, porventura, o membro mais conhecido deste grupo, dado o protagonismo que teve nos vídeos de propaganda dos rebeldes. O jihadista morreu num ataque aéreo realizado pelas forças norte-americanas. Além da identidade de Jihadi John, a imprensa internacional já tinha identificado outros dois terroristas: Alexandra Kotey, de Shpepherd Bush, e Aine Davis, uma antiga traficante de droga londrina que está detida na Turquia.

Esta célula radical foi responsável pela decapitação de pelo menos 27 pessoas na Síria. Há relatos de que terão torturado reféns com práticas macabras, como choques elétricos e crucificações.

Agora que são conhecidas todas as identidades, é possível estabelecer ligações entre os membros deste grupo. Sabe-se, por exemplo, que os quatro cresceram na zona oeste de Londres e que se radicalizaram nesta cidade, frequentando mesquitas locais.

Bondoso, dedicado à família e fã de futebol

El Shafee Elsheikh era a peça que faltava. Com 27 anos, o jovem é descendente de uma família do Sudão, que fugiu da guerra civil no país para Londres. O pai, um poeta que trabalhava na aviação, abandonou a família quando Elsheikh tinha apenas sete anos. Os três filhos ficaram ao cuidado da mãe.

A progenitora, Maha Elgizouli, deu pela primeira vez uma entrevista, durante a qual revelou que Elsheikh fugiu para a Síria na primavera de 2012, depois de se ter radicalizado em Londres. O irmão mais novo, Mahmoud, seguiu-lhe as pisadas, tendo acabado por morrer no ano passado, quando combatia nas fileiras do Estado Islâmico.

“Os meus filhos eram perfeitos. E um dia, de repente, tudo aconteceu”, contou, emocionada ao BuzzFeed.

Elsheikh estudou engenharia mecânica e trabalhava num parque de diversões. Nas palavras da mãe, era um jovem calmo, bondoso e dedicado à família. Tinha os passatempos de um jovem da sua idade e era fã de futebol, apoiando os Queens Park Rangers.

Mas, de repente, tudo mudou. Foi tudo muito rápido, uma questão de semanas, explicou a mãe. 

"Alá diz que a nossa mãe pode ser nossa inimiga"

Os primeiros sinais da radicalização do jovem surgiram em 2011. Na altura, a mãe apanhou-o a ouvir um disco que promovia a guerra santa - a jihad. Depois, Elsheikh começou a frequentar as mesquitas locais, onde ouvia os sermões de líderes islâmicos. 

Um desses líderes terá sido determinante: Hani al-Sibai, um extremista muçulmano que ficou conhecido por ter classificado os ataques de 7 de julho de 2005, em Londres, como uma "grande vitória". Sibai terá mesmo inspirado os terroristas que perpetraram os atentados a hotéis na Tunísia em 2015. Segundo Maha Elgizouli, o filho terá sido profundamente influenciado pelo imã.

A transformação de Elsheikh foi rápida e visível. Em poucos dias, começou a usar robes compridos e a distribuir livros sobre o Islão.

A mãe revelou que se sentia impotente e, como estava solteira, não podia sequer entrar numa mesquita e perceber o que filho ouvia nesses locais. 

“Não podia entrar sem um homem. E precisava de ter entrado, de ter visto o que o imã dizia ao meu filho.”

Um amigo próximo da família, que não quis ser identificado, contou ao BuzzFeed que uma vez viu Elsheikh a dizer à mãe: “Sabes, Alá diz que a nossa mãe pode ser nossa inimiga”.

O jovem acabou por fugir para a Síria em 2012, onde agora vive com duas mulheres e dois filhos. Agora, Elsheikh é um dos homens mais procurados do mundo.

Com ele levou o irmão mais novo, Mahmoud, que morreu em combate no ano passado. Maha Elgizouli culpa as autoridades britânicas por não terem impedido que Elsheikh viajasse com o irmão.

Maha Elgizoyli perdeu os dois filhos para a guerra santa. Sabe que não voltará a abraçar o Mahmoud, mas não perde a esperança de voltar a encontrar Elsheikh.

"Espero que ele mude de ideais. Ouço agora que há muitos rapazes a fugir dali. Espero que o Shafee seja um deles."