Está confirmado: há mesmo um cidadão francês de origem portuguesa no vídeo da execução de 18 soldados sírios e do trabalhador humanitário norte-americano Peter Kassig, que foi divulgado no domingo. De acordo com o canal France 2, os serviços franceses de inteligência identificaram o segundo francês envolvido com o grupo Estado Islâmico como Michael dos Santos, que usa agora o nome de Abou Uthman.

Também o diário francês «Le Monde» avança na edição desta quarta-feira que Abou Uthman, de 22 anos, tem por nome de batismo Michael dos Santos, cidadão francês residente em Roubaix e originário de Champigny-sur-Marne (Val-de-Marne), na região de Paris. Michael é descendente de uma família católica portuguesa, da qual conserva o apelido Dos Santos.


Michael dos Santos (Foto Twitter)

De acordo com o jornal francês « Le Figaro», o nome Abou Uthman aparecia já num inquérito judicial aberto em 2013 em França e que se destinava a investigar uma fileira de jihadistas franceses que estavam de partida para a Síria.
 
 

«Bem conhecido pela Justiça, ele é objeto de um mandado de captura relacionada com uma investigação criminal em outubro de 2013», escreve o «Le Figaro».


A imprensa francesa sublinha que a mãe de Michael dos Santos já tinha alertado a polícia para o comportamento radical do filho, que se juntou à luta na Síria em outubro de 2013.

Os serviços de segurança não têm indícios que levem a concluir que Abou Uthman tenha estado em Portugal. A secreta francesa indica que a militância de Michael dos Santos é a de um mero soldado, sem funções de responsabilidade na hierarquia do Estado Islâmico. No entanto, o luso-francês surge em imagens ao lado do carrasco de jornalistas e de trabalhadores humanitários decapitados por Jihad John, o que leva a concluir que terá importância no grupo terrorista. Ainda de acordo com informações dos serviços de inteligência, dos Santos/Uthman tem-se destacado em ações violentas e nos vídeos de execuções, tendo sido identificado por um amigo em França e depois pela mãe.  

Convertido ao Islão em 2010

De acordo com o jornal «Libération», Michael dos Santos, filho de pais separados, teria adquirido a nacionalidade francesa em 2009. Um amigo, contactado pela France 2, conta ao telefone, que Michael se converteu ao Islão há «quatro anos, quatro anos e meio», e em seguida, foi «desviado». Ou seja, juntou-se a grupos radicais.

O presidente da Câmara de Champigny-sur-Marne disse, também em declarações à France 2, que a mãe de Michael dos Santos «interveio há algum tempo para alertar a justiça e as autoridades policiais» da radicalização do filho. Também Jean-Charles Brisard, especialista em questões relacionadas com o terrorismo, afirmou que «não há dúvida, a mãe reconheceu-o no vídeo, e entrou em desespero».

Esta quarta-feira, muitos jornalistas aguardaram o testemunho da mãe de Michael à frente do prédio onde mora em Champigny, como é evidenciado por este tweet de um jornalista da France 2 no local.
Contactada pelos jornalistas, uma jovem vizinha que mora no mesmo prédio descreveu Michael dos Santos como um jovem educado e discreto, que usava barba. «Ele cumprimentava sempre, era respeitador, mas não falava muito», acrescentou.

Muito ativo no Twitter

Com o nome de guerra @Abou_Uthman, Michael dos Santos destacou-se há alguns meses na rede social Twitter, por causa de repetidos apelos à violência e à jihad na Síria, mas também no território francês.
 
É-lhe atribuída uma conta no Twitter em que alegadamente relata a vida na Síria, mostrando várias fotos de armas apreendidas e outras mais macabras, de soldados curdos decapitados.
 
Algumas imagens são bastante violentas, de acordo com a linha dura do Estado Islâmico, contendo ameaças do tipo «se não estás connosco, estás contra nós».
 
Censurado pela rede social, o jihadista muda várias vezes de conta de @Abou_Uthman para @Abou_Uthman_2, depois @Abou_Uthman_3 e @Abou_Uthman_5 , esta última ainda ativa e que mostra imagens de decapitações, mas com algumas mensagens e imagens censuradas.