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A vida deles era o lixo: e agora?

Jardim Gramacho, horror e vida na maior lixeira da América Latina.

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   |   2012-06-03 10:11

Uma montanha de lixo povoada por homens e mulheres, a disputar detritos com abutres e porcos. Essa imagem acaba agora. Este domingo é o dia em que a maior lixeira da América Latina fecha portas. Mas o lixo era a vida dos catadores do Jardim Gramacho. E agora, o que vão fazer?

Jardim Gramacho deu um documentário: «Lixo extraordinário», que foi candidato ao Óscar em 2011. Vik Muniz, artista e autor, parte da primeira impressão que a lixeira provoca, horror. «É o fim da linha. É para onde vai tudo o que não é bom. Incluindo as pessoas.» E depois desce até Gramacho e no meio do lixo encontra vida, alegria, sabedoria e dignidade.

Conheceu Tião, o presidente da Associação de Catadores de Jardim Gramacho, que fala de Nietsche e leu Maquiavel, porque encontrou um exemplar do «Príncipe» no meio do lixo. «Levei-o para casa, botei atrás da geladeira para secar, quando secou comecei a ler.» Tião, que diz que não tem nada de que se queixar na vida. E que acaba o documentário na TV como convidado de Jô Soares, a interromper o humorista. «Posso corrigir uma coisa que disse? A gente não é catador de lixo, é catador de material reciclável.»

Jardim Gramacho é isto tudo. Ou era. Trabalhavam lá 1500 pessoas. O seu dia a dia era vasculhar o lixo à procura de metal, papelão, plástico, vidro, separá-lo para cada um dos depósitos recetores do material, a troco de 25 reais (11 euros), mais coisa menos coisa, dependia do que encontravam. E a aproveitar tudo o resto que aparecia. Na sexta-feira, último dia de atividade de Jardim Gramacho, um catador sorri para uma reportagem do jornal «O Dia»: «Encontrei um vidro de perfume e agora estou cheiroso. Tudo que a gente encontra usa, tudo sempre serve.»

Reciclagem, como diz Tião, mas a que custo? A podridão, o gás metano, a contaminação do solo faziam de Gramacho uma bomba-relógio para a saúde. O real impacto ambiental dos seus 36 anos anos de atividade nunca foi aliás calculado.

Ninguém pensava muito nisto em 1976, no tempo da ditadura, quando foi criada a lixeira, sobre um mangal com vista para a Baía de Guanabara, num terreno de 1,3 milhões de metros quadrados. Até aos anos 90 Gramacho era terra de ninguém. Recebia todo o tipo de lixo: urbano, químico, hospitalar e industrial. Depois tornou-se um aterro controlado, passou a receber apenas lixos domésticos e da construção civil. Mas já era um desastre ambiental a céu aberto.

Estava para fechar há muito, mas o encerramento foi sendo adiado. Este domingo é finalmente o dia em que o último camião despeja lixo em Gramacho, a tempo de o Brasil se livrar dessa sombra antes da cimeira Rio+20, a conferência da ONU para o desenvolvimento sustentável que decorre de 20 a 22 de Junho.

Os homens e mulheres que trabalhavam em Jardim Gramacho vão receber uma indemnização. São 14 mil reais para cada um, cerca de 5600 euros. E depois? Alguns vão refazer a vida, mas muitos não sabem o que fazer depois do lixo. Mais de 20 por cento das 1500 pessoas que ainda lá trabalham nunca foram à escola. O bairro do Jardim Gramacho tem 5807 pessoas pobres e 2101 indigentes, segundo dados do Governo brasileiro. Vão ser promovidos cursos profissionalizantes e criado um Polo de Reciclagem, que pode empregar até 500 pessoas.

Mas a incerteza permanece. «Nada garante aos catadores que vão achar emprego depois dos cursos. Muitos deles não tinham sequer certidão de nascimento. É muito delicado, é como se você tirasse uma nação indígena de onde ela sempre viveu», diz Isaías Bezerra, coordenador de responsabilidade social da empresa responsável pelo aterro, à «Globo».

O lixo que ia para Gramacho será agora canalizado para a central de tratamento de Seropédica. E Gramacho, como fica? Para já, o aterro vai tentar rentabilizar o biogás produzido através de metano, ajudando a reduzir a emissão de gases com efeito de estufa do Brasil e ganhando dinheiro com a sua venda e créditos de carbono.

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