As crianças que vivem perto de Fukushima, no Japão, têm 20 a 50 vezes mais probabilidade de desenvolverem cancro na tiroide do que em qualquer outro lugar no mundo. Estas são as conclusões de um novo estudo que está a dividir a comunidade científica no Japão.

A investigação desenvolvida pela Sociedade para Epidemiologia Ambiental, citada pela Associated Press, está a tentar mostrar que a radiação tem, de facto, influência no aparecimento de cancros na população.

Para tal, foram monitorizadas 370.000 crianças que viviam perto da zona onde teve lugar o desastre nuclear de Fukushima, desde 2011.

De acordo com os resultados mais recentes, de agosto de 2015, 137 delas foram diagnosticadas com cancro ou havia uma grande probabilidade de desenvolverem a doença. São mais 25 crianças doentes do que no ano anterior.

Os resultados alertaram o médico Toshihide Tsuda, responsável pelo estudo, uma vez que, no resto do mundo, só uma ou duas crianças num milhão desenvolvem esta patologia, por ano.
 

“Isto é mais do que o esperado e está a surgir mais rápido do que o esperado. Isto é 20 a 50 vezes superior ao esperado normalmente”.


Com a descoberta, os investigadores esperam conseguir contrariar as afirmações médicas, que dizem não ser possível ligar cientificamente o surgimento de um caso individual de cancro com a radiação.

Depois do desastre, um médico levado ao local, Shunichi Yamashita, afirmou publicamente que não seria a radiação a causar cancro na população. De acordo com o governo, as pessoas deveriam fazer exames apenas por prevenção.

Contudo, Toshihide Tsuda acredita que os dados recolhidos mostram que a visão do governo está errada.

As conclusões já estão a gerar polémica na comunidade científica. Scott Davis, professor do Departamento de Epidemiologia, em Seattle, afirmou que o estudo era limitado, pois não mostrava uma estimativa das radiações absorvidas por cada indivíduo. Outros veem com preocupação os dados revelados.

O cancro na tiroide é uma doença rara nas crianças e está associada à exposição de químicos radioativos desde a catástrofe nuclear em Chernobyl, em 1986. Este estudo pode ser a primeira prova científica a ligar a doença a esta componente.