William Harrison Courtney foi o primeiro embaixador norte-americano no Cazaquistão (1992-94), tendo também sido embaixador dos EUA na Geórgia (1995-1997).

Em entrevista exclusiva ao tvi24.pt, por skype, o diplomata - que dirigiu os assuntos sobre a Rússia, Ucrânia e Eurásia durante a Administração Clinton - fala sobre a tensão na Ucrânia, tenta explicar o que irá na cabeça de Vladimir Putin, avaliza a forma como Barack Obama tem gerido a crise na Crimeia, e aborda ainda temas como a redução nuclear (que coloca americanos e russos do mesmo lado, mesmo nesta fase de tensão no tabuleiro ucraniano), a ameaça iraniana, a guerra na Síria, a reaproximação EUA/Europa e o «caso Snowden».

Profundo conhecedor da realidade política do leste europeu, foi conselheiro e enviado-especial do Presidente Clinton em diversos assuntos relacionados com a Rússia e Ucrânia.

Especialista em questões do Leste da Europa, antigo «fellow» do Council of Foreign Relations, foi um dos responsáveis pela representação dos EUA na conferência da OSCE que preparou a Cimeira de Istambul.

Entre 1998 e 1999, participou no processo de reorganização das agências norte-americanas ligadas à política externa, incluindo a integração nos organismos do Estado americano da antiga US Information Agency e a Arms Control and Disarmament Agency.

Liderou, também, as negociações que visaram a eliminação de armamento nuclear no Cazaquistão, primeiro país entre as antigas repúblicas soviéticas a fazê-lo.

Diplomata experiente em negociações de desarmamento e/ou contenção nuclear, foi o responsável americano no processo de transferência de 600 quilos de urânio extremamente enriquecido, do Cazaquistão para os Estados Unidos (o chamado Project Sapphire).

Ainda no âmbito nuclear, foi o primeiro americano a participar na comissão bilateral que levou à implementação do Threshold Nuclear Test Ban Treaty.

Representou os interesses americanos em negociações, primeiro com a URSS, depois com a Rússia, desde o início dos anos 90, com vista ao desmantelamento e redução nuclear (depois de vários anos de conversações, em abril de 2010 os presidentes Obama e, na altura, Medvedev assinaram o novo Tratado de Start).

Como diplomata, esteve também em funções (ainda que não como embaixador) nas embaixadas americanas em Moscovo e em Brasília.

Retirou-se do Departamento de Estado em 1999 e foi, ainda, primeiro vice-presidente para os programas de segurança nacional da DynCorp, entre 2000 e 2003.

Como vê a situação na Ucrânia? A escalada de tensão em cidades do leste e sudeste do país é motivo especial de preocupação?

Certamente que sim. A situação tem estado em permanente evolução. Nos últimos dias temos assistido a ocupações de edifícios por parte de manifestantes pró-russos em edifícios em algumas cidades de regiões da Ucrânia. Mas a verdade é que também temos assistido à resistência ucraniana a essas ocupações.

Um cenário de confronto militar direto entre os exércitos da Ucrânia e da Rússia é imaginável? Ou não chegaremos a esse ponto?

Bom, estarão cerca de 40 mil tropas ucranianas preparadas para o que vier a acontecer. Mas parece-me pacífico afirmar que o exército russo será sempre muito superior. Os russos sabem as vantagens que essa superioridade lhes trazem. E estão a jogar com isso.

A preocupação, neste momento, parece totalmente focada na escalada de tensão nas cidades a leste do Rio Dnipro. Em Genebra, americanos, europeus e russos falaram essencialmente disso e quase nada da Crimeia. A Crimeia é uma questão perdida?

A Crimeia foi uma jogada preparada a longo prazo pela Rússia. Esta tensão é um assunto mais complexo, que exige um acompanhamento diário. Para a Crimeia, os russos tiveram tempo para preparar as táticas. O que está a acontecer é menos controlado.

Leia ainda: a ameaça do Irão; a guerra na Síria; Obama e Putin; a Europa e os EUA.

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