O resultado da atual crise entre Ucrânia e Rússia «é imprevisível», afirma o professor e especialista em relações internacionais Adriano Moreira, alertando para os «perigos» de «fracionamento» da Europa.

Aos 91 anos, Adriano Moreira, que preside à Academia das Ciências de Lisboa e se mantém atento à política internacional e nacional, sublinha que era «possível» antecipar a posição de Moscovo, «porque um país como a Rússia não perde o sentido imperial porque mudou o regime».

A «procura das águas quentes do Sul» foi «sempre» um projeto de Moscovo, o que exige «uma atenção cuidada, de articulação e não desafiante», aconselha, reconhecendo que isso «parece ultrapassar as capacidades das lideranças» europeias, o que torna tudo ainda mais «imprevisível».

A União Europeia «parece estar em pousio» e «a única pessoa que se vê movimentar-se e com quem toda a gente vai falar é a chanceler alemã», Angela Merkel, lamenta. «Não tenho uma opinião definitiva sobre ela, mas não posso deixar de notar que se trata de uma pessoa que viveu cerca de 50 anos fora da evolução ocidental», o que «pode explicar o esquecimento dos deveres de solidariedade que são fundamentais nas estrutura da União Europeia», recorda.

Nesse sentido, o ex-ministro e ex-deputado não espera «que a Europa tenha uma grande voz na resolução do problema» Ucrânia-Rússia, mas também não está otimista em relação ao que os Estados Unidos possam fazer, antecipando que o discurso de despedida do presidente Barack Obama «vai ser muito diferente do brilho e da esperança dos discursos que fez até ser eleito».

Certezas, tem só uma: «O imprevisto está à espera de uma oportunidade». Entretanto, defende, «é preciso ter em conta» o «sentido da Rússia», o que «exige uma diplomacia inteligente, permanente, sábia, de maneira que esses valores não venham a transformar-se em ameaças, por se sentirem atingidos».

Apesar de, «com certeza», haver ucranianos que prefiram pertencer à União Europeia, certo é também que estes não pertencem à «parte que quer pertencer à Rússia» e «aí é que está o problema», assinala.

Adriano Moreira destaca que a tensão entre Ucrânia e Rússia é sinal de um problema maior. «Um dos males que está a atingir a Europa é o fracionamento das unidades. É o caso da Espanha, que está com dificuldades enormes, é o caso da Inglaterra, da Bélgica», enumera, sentenciando: «A fraqueza perante o que está a acontecer agora com a Rússia é absolutamente evidente».

Adriano Moreira alerta para os «perigos» da divisão, que «é o contrário da marcha para a unidade de que a Europa precisa para ter voz no mundo».

Numa altura em que «o desamor europeu está a crescer», ajudado pela «crise brutal» e alimentando «o reaparecimento de forças políticas que supúnhamos impossível que voltassem», o risco de o projeto europeu falhar é «evidente», avalia o professor, prevendo que, se a unidade europeia entrar em crise, «a voz da Europa apaga-se no mundo», escreve a Lusa.