Homens armados da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana) atacaram esta madrugada um posto da polícia em Maríngue, centro de Moçambique, horas depois do aquartelamento do seu líder, Afonso Dhlakama, ter sido ocupado pelo exército.

O ataque foi descrito como «intenso» por uma fonte policial à Rádio Moçambique, tendo durado uma hora mas sem causar vítimas, ainda segundo a mesma fonte. «Na sequência dos tiros de armas ligeiras e pesadas registados durante o assalto à base da Renamo, os populares residentes na vizinhança iniciariam imediatamente uma fuga desesperada em busca de local seguro», escreve o jornal «O País», num artigo titulado «População foge em debandada. Escolas e hospitais encerrados».

Em Maríngue, na serra da Gorongosa, localizou-se o quartel-general da Resistência Nacional de Moçambique (Renamo) durante os 16 anos de guerra civil (1976-1992) que quase destruíram o país.

A situação está calma mas tensa na Vila da Gorongosa, centro de Moçambique, nas imediações da base da Renamo de Sandjundira, ocupada na segunda-feira pelo exército moçambicano, observou nesta terça-feira um jornalista da Lusa no local.

O comércio e as repartições públicas estão a funcionar normalmente, mas há um grande movimento de militares armados na localidade e nas suas redondezas. Na picada de cerca de 15 quilómetros que dá acesso à base, os militares estão a controlar o movimento dos jornalistas, ao mesmo tempo que impedem a circulação de outras pessoas e bens.

Na segunda-feira, tropas do exército ocuparam a base de Sandjujira, onde, desde há um ano, estava aquartelado Afonso Dhlakama, o líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), que se encontra em fuga «mas bem de saúde», segundo o seu porta-voz.

O Movimento Democrático de Moçambique (MDM), terceiro maior partido moçambicano, reagiu hoje com «muita angústia» ao agravamento da tensão política no país, apelando ao Governo e à Renamo para que encetem «um diálogo construtivo».

Moçambique vive a pior crise política e militar desde a assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP) em 1992, depois de o exército moçambicano ter ocupado a residência de Afonso Dhlakama, líder da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), numa antiga base militar do movimento, obrigando-o a fugir para parte incerta.

Em declarações à Lusa, o chefe da bancada do MDM, Lutero Simango, afirmou que o seu partido reage com «muita angústia» ao recrudescimento da tensão política em Moçambique, tendo exortado o Governo e a Renamo para pautarem por um diálogo construtivo.

A União Europeia está a seguir de perto e com preocupação os acontecimentos em Moçambique e apela ao «diálogo pacífico e inclusivo» entre as partes, disse à Lusa o porta-voz da chefe de diplomacia europeia.

Numa declaração à agência Lusa, Michael Mann, porta-voz da Alta Representante da União Europeia e vice-presidente da Comissão Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Catherine Ashton, disse que «a UE está a seguir de perto os acontecimentos em Moçambique e a tentar ter uma melhor compreensão do que se passa no terreno».

«Estamos preocupados com as notícias dos recentes confrontos entre a Renamo e o exército nacional, que resultaram na perda de vidas humanas e destruição de propriedade, e que estão a levar a um clima de insegurança para a população civil», afirmou Michael Mann.

O presidente da Câmara de Comércio Portugal-Moçambique considerou hoje à Lusa que a escalada de violência que se vive no país «não terá influência nos negócios» e mostrou-se convicto de que a situação «vai resolver-se rapidamente».

«Para já, [a situação] não terá influência nenhuma [nos negócios], mas era bom que se esclarecesse rapidamente para que a estabilidade política permita que a atividade económica não saia prejudicada», disse à Lusa o presidente da CCPM, João Navega.