William Harrison Courtney foi o primeiro embaixador norte-americano no Cazaquistão (1992-94), tendo também sido embaixador dos EUA na Geórgia (1995-1997).

Em entrevista exclusiva ao tvi24.pt, por skype, o diplomata - que dirigiu os assuntos sobre a Rússia, Ucrânia e Eurásia durante a Administração Clinton - fala sobre a tensão na Ucrânia, tenta explicar o que irá na cabeça de Vladimir Putin, avaliza a forma como Barack Obama tem gerido a crise na Crimeia, e aborda ainda temas como a redução nuclear (que coloca americanos e russos do mesmo lado, mesmo nesta fase de tensão no tabuleiro ucraniano), a ameaça iraniana, a guerra na Síria, a reaproximação EUA/Europa e o «caso Snowden».

Profundo conhecedor da realidade política do leste europeu, foi conselheiro e enviado-especial do Presidente Clinton em diversos assuntos relacionados com a Rússia e Ucrânia.

Os acordos de Genebra provaram que Putin está, apesar de tudo, disposto a negociar com os EUA e a UE, e a ceder em vários pontos. Mas supostamente os ocupantes dos edifícios em Donetsk discordam do que foi assinado...

Em Genebra, Putin assumiu que teria que travar as forças ocupantes no leste e sudeste da Ucrânia. Ao fazê-lo, estava também a assumir que essas forças paramilitares têm diretamente a ver com a Rússia, algo que não tinha assumido numa fase inicial na Crimeia.

Mas não houve uma certa ambiguidade no que saiu de Genebra?

Concordo. Os russos terão que controlar os paramilitares que provocam instabilidade nas cidades ucranianas, os países ocidentais comprometem-se a aumentar a assistência militar. Mas o que está a passar-se nas cidades ucranianas mexe com os sentimentos das pessoas e isso é mais difícil de passar para o papel.

A influência russa na Crimeia e noutras regiões da Ucrânia legitima o que Putin está a fazer?

Do ponto de vista do direito internacional, claro que não. É verdade que há uma forte base cultura e educacional dos russos em muitas zonas da Ucrânia. E essa é uma explicação para o que está a acontecer. Em troca, os EUA e os países europeus comprometeram-se a não aumentar o nível das sanções económicas. A verdade é que essas sanções, a longo prazo, podem ser muito penalizadoras para a Rússia. Putin sabe que tem que conseguir travar as forças ocupantes. Não é do seu interesse a escalada deste problema, porque a longo prazo terá duras consequências económicas.

Terá Putin cometido uma precipitação ao avançar para a Crimeia, cometendo uma aparente violação do direito internacional?

Não creio que tenha sido uma precipitação. Vejo mais como uma estratégia de conter interesses russos em zonas próximas da fronteira russa com países vizinhos.

Haverá uma tendência natural para o poder de Kiev se virar para o ocidente, em reação à ameaça russa?

Sim, parece-me normal. Veremos o que as eleições de 25 de maio na Ucrânia nos irão mostrar. Putin uniu os ucranianos. Por estranho que isso possa parecer, foi isso que aconteceu: ao ameaçar a integridade territorial do país, provocou um sentimento muito forte de união nos ucranianos. Ainda que isso tenha surgido de forma negativa, pode ter um peso muito grande nos próximos tempos.

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