As autoridades alemãs anunciaram, esta segunda-feira, ter chegado a um acordo com Cornelius Gurlitt, o octogenário alemão em cujo apartamento em Munique foram encontradas mais de 1.400 obras de arte possivelmente retiradas a judeus durante o regime nazi.

De acordo com o jornal «El Mundo», Cornelius Gurlitt, de 81 anos, vai permitir que sejam feitas análises a todas as peças suspeitas de terem sido roubadas ou extorquidas pelos nazis, de modo a devolvê-las aos proprietários originais. As peças ficarão confiscadas para pesquisas durante um ano.

Em contrapartida, Cornelius Gurlitt recebeu a garantia de que poderá ficar com todos os trabalhos que comprovadamente lhe pertencem. O octogenário herdou as obras de arte do pai, Hildebrand Gurlitt, um negociador de arte bem relacionado com o regime nazi que as terá adquirido nos anos 1930 e 1940.

«Ele compromete-se a devolver voluntariamente todas as pinturas que tenham sido roubadas», afirmou esta segunda-feira a ministra da Cultura do Governo federal alemão, Monika Gruetters, em entrevista à estação de televisão 3sat.

O tesouro privado de Cornelius Gurlitt foi descoberto em fevereiro de 2012, mas só foi revelado em novembro de 2013, o que suscitou críticas às autoridades alemãs, que chegaram às obras de arte no âmbito de um processo por fraude fiscal. A coleção privada de 1.280 obras, que inclui trabalhos de Picasso, Matisse, Chagall e Monet, foi encontrada e confiscada pela polícia no apartamento de Cornelius Gurlitt, em Munique.

As mais de duas centenas de pinturas, desenhos e esculturas, da autoria de Monet, Manet, Cézanne e Gauguin, descobertos numa outra casa de Gurlitt, em Salzburgo, na Áustria, ficam fora deste acordo. Isto porque se concluiu, após uma primeira inspeção, que as obras não foram roubadas ou compradas abaixo do preço, por pressão sob os proprietários judeus pelos nazis.

No fim de março, Cornelius Gurlitt informou que tencionava devolver as obras que pertenceram a famílias judias. O primeiro trabalho a ser devolvido aos donos originais será «A mulher sentada», de Henri Matisse. A obra pertencia à coleção de arte do líder nazi Hermann Göring e acabou entre o património da família Gurlitt, que tinha relações próximas com o III Reich.

O caso Gurlitt relançou o debate sobre a restituição de obras retiradas aos judeus durante o III Reich. A Alemanha assinou a Declaração de Washington, em dezembro de 1998, na qual 44 países se comprometeram a detetar e restituir as obras de artes que foram apropriadas pelo regime nazi.

Perto de 380 obras de arte foram confiscadas de museus alemães na década de 1930, por serem incluídas na categoria de «arte degenerada», como eram então designadas pelos nazis.