Javier García Roche, sucateiro, 32 anos, é o mentor do «Fight Club» de San Adrià de Besòs, às portas de Barcelona. Um clube de combate para jovens problemáticos, sem a glória do filme de culto de David Fincher.

Há três anos que Javi, assim é conhecido, organiza combates (quase) sem regras. Todos são pagos, tanto o vencedor como o vencido, e quase todos têm um passado por exorcizar. Juan, por exemplo, de apenas 22, esteve três anos detido por apunhalar 16 vezes um outro jovem que escapou da morte por centímetros.

O «Fight Club» fica num «ginásio», precisamente na linha que separa Barcelona de Sant Adrià de Besòs. A identificá-lo tem uma porta metálica típica de garagem, mas já foi num ferro-velho. No interior existe um ringue, uma espécie de gaiola, pneus e um vestiário. Os combates são disputados pelos seus «cachorros», como Javi chama aos seus jovens dos subúrbios, alguns demasiado novos, que lutam a troco de «50 ou 100 euros», conta ao El País. Ele que é criador de cães, todos de raças consideradas perigosas.

Não há regras e a luta termina quando um dos protagonistas se rende. «Golpes de boxe, sem proteções, mas com luvas. Quem vence recebe dinheiro, mas quem perde com honra também», explica Javi.

Juan descobriu o «Fight Club» através do Facebook Chatarras Palace. «Fui e, em 20 segundos, ganhei um combate. Javi deu-me 120 euros», diz. Com a mesma rapidez converteu-se num dos «cachorros» de Javi.

Só há pouco tempo o ferro-velho foi trocado pelo «ginásio» para evitar problemas. «Por diversão», conta Javi, começou a organizar lutas entre os seus trabalhadores. Depressa se espalhou o rumor de que Javi pagava bem e depressa começou a aparecer «gente de fora». Um dia, um dos trabalhadores, Alexis, o melhor lutador do ferro-velho, denunciou Javi. «Disse que eu os ameaçava com despedimentos para que combatessem», diz. Alexis despediu-se e foi para o Paraguai.

A polícia não pode fazer nada. Para as autoridades espanholas, dois adultos que decidam lutar entre si não é crime. Outra coisa seria se o combate fosse entre animais ou que houvesse apostas ilegais, cenários que Javi nega. Também não podem assistir menores de 14 anos sem que estejam acompanhados dos pais. E nem as autoridades estão interessadas em Javi, nem a Federação de Boxe. «Porque não é boxe», argumenta. E nunca a polícia teve de ser chamada ao local.

Javi, tal como a maioria dos seus «cachorros», também esteve preso. Aos 16 anos fazia parte de um «grupo». «Queríamos espalhar o medo entre os outros miúdos», recorda. «E roubávamos para gastar em drogas», acrescenta. Traficou droga mas diz que vive melhor como sucateiro. «Fizeram-me um favor quando me prenderam. Vi logo que aquilo não era para mim.»

Da sua experiência como pugilista profissional diz ter aprendido que «mais boxe significa menos luta nas ruas».