O ex-diretor artístico do Teatro Real de Madrid Gerard Mortier morreu no sábado à noite, em Bruxelas, aos 70 anos, informaram fontes próximas do artista e o gabinete da ministra da Cultura belga.

Gerard Mortier, que foi diagnosticado com um cancro no pâncreas no verão passado, morreu em casa rodeado de amigos e familiares, de acordo com as mesmas fontes próximas do artista, citadas pelas agências Efe e France Presse.

De nacionalidade belga, Mortier foi diretor artístico do Teatro Real de Madrid entre novembro de 2008 e setembro de 2013, altura em que foi substituído por Juan Mataboch, após duras críticas à tutela da Cultura. Presentemente, era conselheiro artístico do Teatro Real de Madrid.

Antes de assumir o cargo em Madrid, Gerard Mortier dirigiu o Théâtre Royal de la Monnaie, em Bruxelas, o Festival de Salzburgo e a Ópera de Paris.

No Teatro Real de Madrid, que quis converter num «laboratório de ópera do século XXI», levou à cena o clássico «Così fan Tutte», de Mozart, e «A Perfect American», do compositor norte-americano contemporâneo Philip Glass.

Já visivelmente fraco, foi à apresentação da ópera «Brokeback Mountain», a 27 de janeiro, em Madrid, que encomendou, em 2008, ao compositor norte-americano Charles Wuorinen.

O diretor do Teatro de Odéon, em Paris, Luc Bondy, recordou-o como «um grande inovador», apesar de «não ter sido de todo consensual», mesmo quando, «ao mesmo tempo, refletia muito sobre a coerência das suas programações».

O Théâtre Royal de la Monnaie evocou «a perda de um amigo insubstituível».

O primeiro-ministro belga, Elio Di Rupo, destacou a perda de uma «personalidade visionária e generosa», enquanto o Presidente francês, François Hollande, saudou a memória de um «grande diretor de ópera», que tinha «a convicção de que esta arte era decididamente contemporânea».

Autor de «Dramaturgia de uma paixão», conjunto de reflexões sobre ópera, Gerard Mortier empreendeu a renovação do La Monnaie, em Bruxelas, durante a década de 1980, trabalhando com encenadores como Luc Bondy e Patrice Chéreau, falecido em 2013.

Em 1991, assumiu a direção do Festival de Salzburgo, sucedendo ao maestro Herbert von Karajan, titular da Filarmónica de Berlim, que nascera na cidade austríaca e dominara o festival durante quase 30 anos.

Mortier abriu então Salzburgo a encenadores contemporâneos como Peter Stein e Peter Sellars, programou obras de compositores do século XX como Leos Janacek, Richard Strauss e Olivier Messiaen, trabalhou com regentes como Kent Nagano e Claudio Abbado, falecido no passado mês de janeiro, em Itália, e acabou por se afastar da direção, quando os ultranacionalistas de Jorg Haider assumiram o governo austríaco, em 1999.

«Era maravilhoso trabalhar com ele, quando, com a sua capacidade e paixão, realizava programas que pareciam impossíveis», disse hoje a presidente do Festival de Salzburgo, Helga Rabl-Stadler, reagindo em comunicado à morte de Mortier. «Mas era difícil trabalhar com ele - prosseguiu -, quando a sua vontade de provocar feriam companheiros e artistas».

«A sua morte é uma trágica perda», concluiu Rabl-Stadler.

Em homenagem a Gerard Mortier, o Teatro Real de Madrid «vestiu-se» hoje de negro, na fachada, e dedicou-lhe a representação de «Alceste», de Christoph Willibald Gluck, uma das óperas que marcaram a reforma da chamada «ópera séria», no final do século XVIII, refere a Lusa.