Mark Weiss, antigo piloto da American Airlines, dirige a equipa de aviação civil do Spectrum Group, empresa baseada em Washington DC.

Este especialista norte-americano em aviação conhece a fundo a operação de investigações e buscas do voo MH370 da Malaysia Airlines, misteriosamente desaparecido a 8 de março passado, minutos depois de ter descolado do aeroporto de Kuala Lumpur, nunca tendo chegado a Pequim.

A experiência de 20 anos a comandar um Boeing 777 em tudo idêntico ao que desapareceu leva-o a apontar para uma hipótese de «algum tipo de luta ter acontecido no cockpit», muito provavelmente provocada por um ou mais intrusos.

Entrevista exclusiva ao tvi24.pt.

Exploremos então a hipótese de desvio ou atentado. Qual das duas lhe parece mais plausível?

Insisto: o mais que podemos fazer é trabalhar em cenários. E quanto mais penso nas hipóteses, e quanto mais troco ideias com os meus colegas que trabalham nas investigações, mais me inclino para uma situação em que alguém se tenha apoderado do avião. Alguém que terá entrado no cockpit indevidamente e apanhou os pilotos de surpresa.

Como é que isso é possível num Boeing 777 com mais de 250 pessoas e que faz a ligação entre duas cidades tão importantes?

Essa é uma excelente questão. Em primeiro, temos que colocar a questão da segurança. E acredite que os procedimentos de segurança são fundamentais numa empresa como a Boeing e para as grandes companhias de aviação. No que se refere ao acesso ao cockpit, há coisas que podem ser melhoradas, há ideias a serem trabalhadas, mas a verdade é que isso pode acontecer. Depois, há que atender à questão do próprio controlo do avião. E nesse aspeto diria que, do mesmo modo que só um piloto experimentado está apto a comandar um Boeing 777, também é verdade que não é impossível que, uma vez o avião esteja em pleno voo numa ligação como essa entre Kuala Lumpur e Pequim, alguém com algum tipo e conhecimento consiga fazer pequenos desvios de rota.

Como assim?

Repare, a partir do momento em que o voo MH370 descolou de Kuala Lumpur, ele já tinha dois planos de rota introduzidos nos computadores de bordo. A rota normal, que neste caso começaria em Kuala Lumpur e terminaria em Pequim, e uma segunda com um aeroporto alternativo. No momento em que o avião desapareceu misteriosamente dos radares, já não era preciso introduzir nada para que ele chegasse a um desses dois pontos. Um voo dum 777 começa com uma imensidão de coisas já programadas e introduzidas, à luz de um conjunto de procedimentos «standard», que são muito rígidos. Por isso, diria que alguém que tenha estudado alguma coisa sobre o assunto, alguém com algum tipo de experiência de pilotagem ou, simplesmente, alguém que goste daqueles videojogos que simulam voos poderia ter provocado as alterações que se verificaram. E nós sabemos que houve pelo menos duas alterações.

Que alterações foram essas? Elas podem indicar-nos algo sobre as intenções do que foi feito?

Sabe-se que o avião primeiro se desviou para norte e voou cerca de duas horas nessa direção e para oeste, para depois se desviar para sul e também para oeste.

Isso, para si, prova que houve intervenção humana, mesmo depois do desaparecimento dos radares...

Essa é uma das poucas certezas que tenho em relação a tudo isto. Se ele teve dois desvios à rota programada, é porque houve intervenção humana. Não há outra possibilidade. Ora, se houve, então ou foi dos pilotos, ou foi de alguém que nós não sabemos quem é. O governo da Malásia, ao insistir na tese de acidente por incêndio ou explosão e afastar suicídio ou atentado, parece ignorar isso. Se o avião tivesse explodido, como é que tinha continuado a voar mais algumas horas e até tenha feito dois desvios?

Leia ainda:a gestão da crise; a reação do governo da Malásia; as diferentes teorias; os pormenores técnicos do que pode ter acontecido; o ponto da situação das buscas