Morreu Nelson Mandela. Madiba disse adeus. Aos 95 anos. O homem que unificou a África do Sul, que fez do branco e do negro um só, todos cidadãos sul-africanos, partiu esta quinta-feira. Na verdade, Nelson Mandela não defendeu só os direitos dos negros sul-africanos.

Mandela lutou contra o racismo no mundo e pela tolerância. Uma guerra nem sempre pacífica, mas paciente contra o preconceito e pela igualdade dos povos, com palcos e sem fronteiras, que lhe mereceram o respeito de líderes mundiais e um prémio Nobel, que dilui a afirmação da parte de Robert Mugabe, o controverso presidente do Zimbabué desde 1980 e acusado de violação dos direitos humanos, de que Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul e rosto do fim do apartheid, terá sido «muito brando» com os brancos.

« Se queres fazer as pazes com o teu inimigo, tens que trabalhar com o teu inimigo. Depois, ele torna-se teu parceiro».

Madiba correu muito e vai agora descansar. Uma vida dedicada à causa. Nelson Mandela nasce a 18 de Julho de 1918 em Transkei, na África do Sul, na tribo Madiba, que lhe dá a alcunha por que veio sendo conhecido, e cedo percebe que o mundo não podia ser uma dicotomia. Com cerca de 20 anos junta-se ao movimento anti-apartheid que defendia o fim da divisão entre brancos e negros.

Qual David contra Golias, as televisões de todo o mundo mostram o momento histórico de Nelson Mandela ao lado do presidente sul-africano, F. W. de Klerk, em Oslo, na Noruega, para receber o prémio Nobel da Paz, em 1993. Um ano depois, torna-se no primeiro presidente negro da África do Sul. Tinha 77 anos. Nunca é tarde para acreditar.

Mas, até 1994, muito há a contar sobre o homem de olhos pequenos e sorriso largo. Batizado Rolihlahla Mandela, assiste à perda de poder do pai. A família vive tempos de grande dificuldade, em que a comida é escassa e feita na rua, como é na rua e com brinquedos feitos por ele que Mandela brinca.

Pela mão de um amigo do pai, torna-se no primeiro membro da família a ir estudar e é lá que preferem chamar-lhe Nelson. Aos nove anos, a sua vida dá uma reviravolta. O pai morre de doença e é adotado por um chefe tribal, que quis tomar conta do filho do amigo e equipara Mandela aos seus outros filhos.

É por volta dos 16 anos, aquando da circuncisão que marca a passagem de rapaz para homem, que Nelson Mandela se apercebe da injustiça que é o controlo e a supremacia branca, depois de ter lido nos livros de história que as duas raças tinham convivido bem durante algum tempo.

O jovem, que se destaca no boxe, entra na universidade de Fort Hare, em 1939. No segundo ano, Madiba é eleito para a associação de estudantes e acaba expulso. O regresso a casa deixa o pai adotivo furioso e este arranja-lhe um casamento de acordo com a tradição tribal. Vendo-se pressionado, Nelson Mandela foge de casa e vai viver para Joanesburgo, onde faz um pouco de tudo para sobreviver e matricula-se na faculdade de Direito.

Uma vida preenchida, mas que não lhe tira tempo para ser ativista anti-apartheid. Depois de se juntar ao Congresso Nacional Africano (ANC) em 1944, forma a liga jovem do mesmo e cresce a a ambição de fazer do ANC um grande movimento de massas a nível nacional. E consegue-o. O estudante de Direito abre um escritório e vai gerindo o movimento contra as políticas governamentais racistas de forma pacífica, com recurso a greves e boicotes e em defesa da educação para todas as crianças. Casa pela primeira vez, com uma enfermeira, de quem tem quatro filhos, mas nem todos sobrevivem.

Parte II: Nelson Mandela: «Um ideal pelo qual sou capaz de morrer»