O panorama mundial da malária é «ainda muito preocupante», pois morrem anualmente 600 mil pessoas, mas a situação está «melhor do que alguma vez foi», disse à agência Lusa a investigadora portuguesa Maria Manuel Mota.

A cientista portuguesa, que se encontra na capital de Cabo Verde para uma série de conferências sobre a temática da malária, em que é especialista, argumentou que os avanços registados nos últimos anos têm permitido diminuir para cerca de 500 milhões de novos casos de infeção.

«É um panorama muito preocupante ainda, porque temos 600 mil crianças que morrem todos os anos devido à malária, mas também posso dizer que o panorama é melhor do que alguma vez foi, porque nos últimos 10 anos, os fundos que foram proporcionados para estudar e investigar foram bastante aumentados», afirmou.

«Há cada vez mais cabeças pensantes e, como consequência, a probabilidade de alcançarmos uma estratégia que seja racional para o combate à doença é maior. Estou otimista, mas também sei que não haverá uma solução para já, que não é um problema que se consiga resolver nos próximos cinco anos», acrescentou Maria Mota.

A investigadora, 43 anos, vencedora do Prémio Pessoa, licenciada em Biologia, mestre em Imunologia pela Universidade do Porto, doutorada em Parasitologia Molecular pela University College, de Londres, afirmou que o caminho a seguir para debelar a doença passa pela criação de uma estratégia comum internacional.

«Já houve muitos inseticidas usados e muito está a ser feito. O problema é que sabemos que, depois, isso não é sustentável porque, ecologicamente, não são bons, ou, quando são usados, não têm eficácia a longo prazo, pois os mosquitos portadores do parasita acabam sempre por arranjar resistências, o que é preocupante», explicou.

«Em termos de uma vacina, há uma prestes a sair, mas que é muito pouco eficaz, tem apenas 30% de eficácia, pelo que ninguém está convencido de que vai resolver o problema. O caminho a seguir é desenvolver novas estratégias, é tentar encontrar novas vacinas e fármacos, tentar várias vias até que algum funcione», sublinhou.

A cientista portuguesa, natural de Gaia (Porto) e distinguida já com vários prémios internacionais, alertou para o facto de, em países em que a prevalência do parasita é residual, como o caso de Cabo Verde, há uma certa tendência para que as autoridades de «sentem à sombra da bananeira», permitindo que a situação retroceda.

«O maior problema é que não há uma estratégia comum internacional para aplicar a todos estes casos, em que se defende que cada caso é um caso, que tem de ser pensado e que tem de ter uma estratégia. A mensagem principal para os países endémicos passa por apostar nas gerações futuras, dar-lhes uma educação científica que lhes vai permitir maior preparação para enfrentar os problemas de uma forma racional. É isso que vai ser a solução», defendeu.

Para Maria Mota, o número de mortes é «assustador», sobretudo na África Subsaariana, mas «proporcionalmente baixo», embora tenha de se ter em conta que, qualquer criança que morre no século XXI com uma doença que, à partida seria prevenível e que se sabe qual é a causa, «é uma morte a mais».

«A África subsaariana, com 80% dos novos casos de infeção, é a região mais preocupante e onde vai ser mais difícil arranjar-se uma solução», indicou.

Segundo os dados de 2012 da Organização Mundial de Saúde (OMS), a malária é endémica em 99 países e, na África subsaariana, é a principal cauda de morte de crianças menores de cinco anos, matando uma criança a cada minuto (1.500 mortes do dia).

Em Cabo Verde, a taxa tem sido residual e, em janeiro último, o arquipélago foi premiado pelos esforços no combate à doença pela Aliança de Líderes Africanos para a Malária, depois de obter uma cobertura de 95% de redes impregnadas com inseticida para prevenir a contaminação, como conta a Lusa.