O Reino Unido vende equipamentos militares a praticamente todos os países incluídos na sua própria lista de regimes suspeitos de violações dos direitos humanos, incluindo a Síria, o Irão e a China, segundo um relatório parlamentar.

O documento, elaborado por uma comissão parlamentar britânica e citado pela agência France Presse, indica que o governo de Londres emitiu ou renovou 3.000 licenças de exportação de armas ou outros equipamentos para países daquela lista, a que corresponde um valor de pelo menos 12 mil milhões de libras (14,1 mil milhões de euros).

«Uma verba gigantesca», comentou o antigo ministro da Defesa e presidente da comissão parlamentar, John Stanley, acrescentando ter pensado inicialmente que «alguém tinha acrescentado uns zeros».

Entre os países aos quais foram emitidas licenças figuram também a Arábia Saudita, Bielorrússia, Rússia, Sri Lanka e Zimbabué, segundo o relatório da comissão parlamentar de Controlo da Exportação de Armas da Câmara dos Comuns (câmara baixa do parlamento britânico).

Para John Stanley, o relatório «destaca o conflito inerente entre as exportações de armas do governo e as políticas de direitos humanos» e o governo deve ser mais cuidadoso na avaliação das licenças.

A comissão considerou que, embora muitas das licenças fossem para itens de uso tanto civil como militar que podem facilmente ser usados para repressão interna, os números são «surpreendentemente elevados».

Os países com maior número de licenças são a China, com 1.163 licenças no valor de 1,4 mil milhões de libras (1,6 mil milhões de euros), Arábia Saudita (417 no valor de 1,8 mil milhões de libras ou 2 mil milhões de euros) e Israel e os Territórios Palestinianos, com 381 licenças no valor de 7,8 mil milhões de libras ou 9 mil milhões de euros.

O Irão, alvo de sanções internacionais devido ao seu programa nuclear, obteve 62 licenças no valor de 803 milhões de libras (932 milhões de euros) e a Síria, onde a guerra civil já fez perto de 100.000 mortos segundo a ONU, teve três licenças no valor de 143 mil libras ou 163 mil euros.

Segundo o relatório, os fornecimentos ao Irão são essencialmente de material criptográfico e, à Rússia, equipamento biotecnológico, espingardas com mira, armamento laser e aviões não-tripulados («drones»).

As licenças emitidas para a Síria dizem respeito a veículos todo-o-terreno e peças de sonares.

De visita a Islamabad, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, defendeu as regras de controlo britânicas como «entre as mais rigorosas do mundo» e sublinhou que o Reino Unido não exportou nada para o Irão que viole as sanções em vigor.

«As pessoas podem estar confiantes quanto ao controlo das nossas exportações, que é dos mais rigorosos do mundo», disse Hague, acrescentando que os exportadores britânicos estão sujeitos às regras nacionais, internacionais e da União Europeia e ao acompanhamento por uma comissão parlamentar.

Da lista de 27 países, os únicos dois para os quais não foi emitida qualquer licença são a Coreia do Norte e o Sudão do Sul.

A lista britânica de países cujos regimes são considerados "sensíveis" em matéria de direitos humanos é composta pelo Afeganistão, Arábia Saudita, Bielorrússia, Birmânia, China, Colômbia, Coreia do Norte, Cuba, Eritreia, Fidji, Iémen, Irão, Iraque, Israel e os Territórios Palestinianos, Líbia, Paquistão, República Democrática do Congo, Rússia, Síria, Somália, Sri Lanka, Sudão do Sul, Turquemenistão, Uzbequistão, Vietname e Zimbabué.