As fotografias revelam mais do que o passar dos anos na vida de Carmen Glória Quintana. As fotografias mostram o antes e o depois do corpo queimado pelos agentes de segurança de Augusto Pinochet. Quase 30 anos depois, a chilena que foi queimada viva e se tornou símbolo da democracia contou a sua história à BBC.

Foi há precisamente 27 anos, em Julho de 1986, quando Carmen tinha 18 anos. «Foi decretada uma greve geral para o dia 2 de julho e Pinochet havia ameaçado usar as Forças Armadas para reprimir a manifestação». A estudante universitária participava no protesto contra o governo, mas, o grupo foi apanhado por um contingente policial. Conseguiram fugir todos - incluindo a irmã de Carmen ¿ menos ela e um fotógrafo.

«Quando caminhávamos [até à Universidade de Santiago] fomos cercados por uma carrinha cheia de soldados, todos com os rostos pintados e vestidos com uniforme de camuflagem».Na versão oficial, os dois acabaram por ser vítimas dos cocktails de «molotov» que carregavam. A história revelada pelos dois manifestantes dá conta de que os homens de Pinochet os regaram com a gasolina. Carmen e o grupo levavam gasolina e pneus para queimar. Acabou ela queimada. Viva. Sessenta e cinco por cento do corpo queimado. O fotógrafo não resistiu e morreu passados dias.

«Insultavam-me, encostavam o cano da metralhadora nas minhas costas e eu chorava, sentia muito medo (¿) O militar que comandava os soldados, o tenente Pedro Fernández Dittus, pegou o frasco com gasolina. Estava de pé com o rosto virado para a parede. O tenente começou a despejar a gasolina sobre a minha cabeça e o meu corpo. Rodrigo, que estava caído, sangrando, foi regado com gasolina como se fosse uma planta. Sem mais nem menos, jogaram algo em chamas sobre nós e me converti numa tocha humana. Rodrigo também», descreve à BBC.

Carmen Quintana desmaiou, para voltar a acordar num estrada de terra batida juntamente com Rodrigo Rojas. Uma patrulha da polícia a quem nada contaram do ataque encaminhou-os para um centro de saúde. Carmen voltou a perder os sentidos e nunca mais voltou a ver Rodrigo, que não resistiu aos ferimentos e morreu quatro dias depois.

Carmen Quintana esteve em coma num hospital chileno antes de ser transferida para o Canadá. Nos primeiros anos foi submetida a mais de 40 operações. Neste processo hospitalar soube que tinha sido perpetrado um ataque contra Pinochet.

Regressou ao Chile em 1988, mas não parou nem se calou. Correu mundo a contar o seu caso e a denunciar a violação dos direitos humanos do regime de Pinochet. «A raiva de saber que tantos morreram sem voz para denunciar o que lhes aconteceu, deu-me forças.

Sentia que falava por toda essa gente».