As últimas semanas têm sido algo perturbadoras na imagem da América no Mundo.



Os detalhes conhecidos publicamente sobre a forma como o programa PRISM colocam em causa os direitos de privacidade dos cidadãos lançaram o debate a nível mundial: terá o governo americano o direito de fazer aquilo?

Enquanto os argumentos se dirimiam, as ondas de choque do «caso Snowden» foram manchando o prestígio internacional que o Presidente Obama mantém em quase todo o Mundo.

O tema da «vigilância do Estado» é sempre muito delicado. E, obviamente, impopular para quem tem que o assumir politicamente.

No caso de Barack Obama, e tendo em conta as críticas que fez em 2007 ao seu antecessor (e então ainda Presidente Bush), há um certo constrangimento de conceito.

Mas tirando a parte das incoerências políticas (que não poupam ninguém, à medida que o tempo passa), a pergunta que se deve colocar é: podia ser de outra maneira?

Depois do 11 de Setembro de 2001, os EUA assumiram, enquanto complexo estatal (e independentemente da cor política do presidente em funções) uma prioridade, acima de qualquer outra: impedir um novo ataque terrorista.

O sucesso nesse caminho terá tido custos muito amplos ao nível dos direitos de privacidade. O «caso Snowden» revelou muito sobre isso: e é certo que muitos dos pormenores são, no mínimo, embaraçosos.

Mas no deve e haver, não há grandes dúvidas sobre as vantagens de um programa como o PRISM (como havia no «Echelon», programa anglo-americano, também muito abrangente ao nível das escutas).

É claro que, se não colocarmos tanto o foco na eficácia e nos resultados, há um mundo de perguntas difíceis que podem ser colocadas.

Esta inesperada tensão EUA/Europa, espoletada nos últimos dias depois de notícias publicadas na Alemanha -- e que apontam para que parte das revelações de Snowden denunciariam espionagem americana a inúmeras embaixadas em países europeus e, mesmo, instituições europeias ¿ pode abalar a supostamente intocável aliança transatlântica.

Mas convém pôr estas coisas em perspetiva.

Que essas suspeitas geraram desconforto, é indiscutível (sobretudo do lado francês, com o Presidente Hollande a admitir mesmo suspender as negociações sobre a plataforma comercial EUA/UE). Mas daí até se pôr em causa o «tandem» Estados Unidos/Europa vai um grande passo.

A dependência militar dos europeus em relação aos EUA é tanta que não é plausível pensar-se num distanciamento real. Por outro lado, a tendência, no caso comercial, é até de reforço de uma relação que é já, de longe, a maior do Mundo (40% do comércio mundial tem a ver com trocas comerciais EUA/Europa).

E este recente episódio (com pormenores caricatos) do avião onde circulava o Presidente da Bolívia, Evo Morales, confirmou que, no plano das alianças e cumplicidades, tudo continua no seu devido lugar: Portugal, França e outros países europeus recusaram a utilização do seu espaço aéreo a um voo onde poderia estar Edward Snowden.

Em Berlim, cinco anos depois de ter sido endeusado, Barack Obama levou com um «teaser» incómodo, mas com óbvia piada: «Yes We Scan». O Presidente sentiu-se mesmo na necessidade, durante a sua viagem a África, de explicar que «a vigilância é só para se compreender melhor como o Mundo funciona». «Quando quero saber o que Angele Merkel pensa, telefono-lhe», insistiu Obama.

O «caso Snowden» abalou os índices de popularidade de Barack Obama «overseas»? Certo. Mas olhar para isso é apenas ver a árvore. E a verdade é que esta floresta continua a ser americana.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca