É o ponto mais crítico de uma história de cinco anos de hostilidade cega dos republicanos contra Obama.

O «government shutdown», que paralisou uma boa parte dos serviços federais nos EUA, mostra, com uma ponta de comédia e forte carga trágica, como o sistema político e legislativo em Washington é disfuncional.

A paralisação não é nova. Reagan enfrentou-a duas vezes, mas apenas por algumas horas. Clinton também a viveu por duas vezes, e aí já foi mais grave, num total de 28 dias com o complexo governamental americano bloqueado.

Reagan e Clinton são apontados como dois dos melhores presidentes americanos das últimas décadas e foram reeleitos facilmente. Isto quer dizer que a base desta situação não tem a ver com quem exerce os cargos políticos, mas com um sistema disfuncional.

O problema é que os anos Obama têm um contexto que se torna mais difícil de resolver e com um potencial de perigo bem mais elevado.

Como muito bem nota Paul Krugman, em artigo no «New York Times» com um título brilhante («Rebels without a clue», rebeldes sem uma pista), «a economia americana é hoje bem mais débil do que era nos anos Clinton».

Se esses «rebeldes» a que Krugman se refere (a ala radical do Partido Republicano no Congresso, particularmente bem representada na sequência da eleição de 90 membros do Tea Party nas «midterms» de 2010) assumissem ao menos que não têm uma causa, isso até lhes dava um ceto «glamour». O drama é que não têm sequer ideia do que estão a fazer.

«Esta crise é provocada por uma fação, de um só partido, numa só câmara do Congresso. Essa fação quer travar uma lei que já está aprovada. Não faz sentido que isso provoque a paralisação de todo o sistema», acusa, cansado, Barack Obama.

Cada dia de «government shutdown» poderá custar cerca de 250 milhões de dólares, entre os serviços que não se prestam e receitas que não se geram. Num momento em que a tendência ainda era de recuperação lenta e frágil, os analistas estimam que uma paralisação de um mês custaria uma queda de 1,5% no PIB americano. Uma tragédia: não só para os americanos, mas também para a Europa, que ainda sofre diretamente com o que acontece do outro lado do Atlântico.

Em política, nunca é avisado apontar inocentes e vilões.

Mas, desta vez, as coisas são fáceis de explicar, mas dramaticamente difíceis de solucionar.

Sem Orçamento aprovado, a Administração Obama precisava da aprovação do Congresso para um «orçamento temporário» que pagasse os serviços federais até ao fim deste ano.

Com uma ligeira maioria democrata no Senado, mas enfrentando uma imensa maioria republicana na Câmara dos Representantes, Obama sabia que o risco que corria.

A exigência dos republicanos, dominados pelo Tea Party, mostra a insanidade desta discussão. A troco de um orçamento que urge aprovar, eles exigiram ao Presidente um adiamento por um ano da implementação do ObamaCare.

Ora, a Reforma da Saúde foi aprovada no Congresso há três anos e meio. Confirmada pelo Supremo Tribunal americano em junho de 2012. E relegitimida politicamente há 11 meses com a reeleição de Obama.

Fazer essa exigência nesta altura do campeonato não é jogar limpo. Desta vez, Obama não vai ceder.

Clare McCaskill, senadora democrata do Missouri, desabafou, horas antes da América entrar em «shutdown»: «Toda a gente aqui perdeu o juízo: os republicanos, os democratas, o Presidente. Toda a gente».

Se a crise não se resolver nos próximos dias, há uma tempestade perfeita em formação.

Ao «apagão orçamental» pode juntar-se o atingir do teto da dívida. O próximo dia 17 de outubro marca esse «deadline». E aí a coisa é mais complicada. Uma América em «default» e com os serviços federais, é um cenário muito feio de imaginar.

Convém que, por uma vez, os líderes em Washington tenham juízo.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca