A 6 de novembro de 2012, faz hoje um ano, Obama vencia Romney nas eleições presidenciais com uma vantagem inesperada.

Os meses que antecederam a eleição presidencial mais cara da história americana foram marcados por um empate técnico.

Obama, vencedor folgado em 2008, fora um presidente impopular no primeiro mandato, com a taxa de aprovação a navegar entre os 40 e os 50%.

Romney tinha campanha bem financiada e focada no tema económico, apesar dos meses de disparate nas primárias, infetadas por temas queridos ao Tea Party.

As convenções partidárias reforçaram ideias fortes: do lado democrata, um brilhante discurso do ex-Presidente Clinton fez com que muitos americanos percebessem que «seria impossível que Obama resolvesse, em apenas quatro anos, todo o mal que os oito anos Bush fizeram à América»; no campo republicano, o mantra de não permitir a subida de impostos fez com que Romney escolhesse o campeão do conservadorismo fiscal, Paul Ryan, para número dois.

Obama e Clinton expuseram que «os democratas continuam a acreditar numa sociedade 'we are all in this together', enquanto os republicanos defendem uma visão ¿you are on your own¿». Romney prometia devolver a América na rota da prosperidade económica, mas viu a sua mensagem perturbada por um bizarro número de uma «cadeira vazia» de Clint Eastwood.

Mesmo com o desgaste da governação, Obama mantinha trunfos fortes, porque mostrava uma máquina eleitoral mais afinada que o adversário.

A subida de Romney depois do primeiro debate aumentava as expectativas do campo republicano de concretizar o «wishful thinking» repetido nos quatro anos anteriores de que Obama seria um «one term guy».

A oito dias da grande eleição, a «october surprise» surgiu de onde menos se esperava: não era um escândalo em torno de um candidato nem sequer um discurso inspirado de algum dos contendores.

O Sandy revelava-se a maior «super storm» das últimas décadas na América, tendo consequências arrasadoras em estados pouco habituados a levar com tempestades tão fortes.

A tão poucos dias de uma eleição presidencial, as atenções mediáticas ficaram completamente baralhadas. Havia que saber reagir a isso: e na gestão política do Sandy, Obama arrasou Romney. Surgiu como o Presidente protetor, que por alguns dias deixou de se preocupar com a campanha e tomou o controlo da situação.

O episódio de Chris Christie, um dos principais apoiantes de Romney na Convenção, três semanas antes, foi a estocada fatal no candidato republicano: o governador da Nova Jérsia, carismático e popular, deixou-se levar pela emoção do momento e não poupou elogios ao Presidente Obama, que dias depois seria o grande adversário nas urnas do amigo Romney.

O desconforto no campo republicano foi evidente. Obama ganhou o sprint final e foi reeleito com um «landslide» nos estados decisivos (ganhou nove dos 11 mais relevantes) e mesmo no voto popular (três milhões de votos mais que Romney).

Relegitimação? Sim. Mas daí até ganhar o fôlego que precisava para concretizar a agenda transformadora que prometeu logo na tomada de posse vai um grande passo.

O primeiro ano de Obama no segundo mandato tem sido marcado, uma vez mais, pelo impasse. A dupla crise «shutdown» e teto da dívida mostrou à evidência que o essencial não mudou.

Sem o controlo da Câmara dos Representantes, os democratas não conseguem dar suporte suficiente para fazerem valer a agenda do Presidente. O orçamento para 2014 está a ser a prova mais recente disso.

A primeira investida no «gun control» passou à queima no Senado, mas foi barrada na House. Imigração e alterações climáticas, dois dos temas mais falados por Obama na campanha da reeleição, só serão atacados no segundo ano do segundo mandato.

Ainda haverá tempo para cumprir a «mudança duradoura»?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca