«O extremista em Washington é Barack Obama»

DICK CHENEY, vice-presidente dos EUA entre 2001 e 2009, «falcão» da direita americana

«Só quando políticos como Chris Christie ou Jeb Bush e não Ted Cruz ou Marco Rubio tomarem conta do partido é que o Tea Party vai recuar e os republicanos vão voltar a ter um comportamento normal»

NORMAN ORNSTEIN, investigador político na American Enterprise Institute

Washington vive ainda em plena fase de rescaldo da maior crise sistémica que atravessou na última década e meia.

Mais de duas semanas de «government shutdown» não se apagam de um dia para o outro.

Barack Obama, que teve no plano do jogo político a maior vitória do segundo mandato até agora, já aponta baterias para a Reforma da Imigração (uma das principais promessas da reeleição) e para a implementação do ObamaCare.

Tendo em conta o acordo amplamente bipartidário aprovado no Congresso (com os votos de quatro quintos do Senado e dois terços da Câmara dos Representantes), tudo parecia indicar que o Presidente passaria a ter condições políticas para concretizar a sua agenda até ao final do mandato.

Mas, na política americana, as coisas nunca são exatamente o que parecem.

Um dos trunfos que a reeleição de Obama parecia ter tido era uma maior disponibilidade do lado republicano, no segundo mandato, para temas como a Reforma da Imigração. A ascensão do jovem senador Marco Rubio, da Florida, no Partido Republicano era outro motivo de crença num segundo mandato com um ambiente mais distendido.

Mas os sinais mais recentes são muito pouco animadores nesse aspeto. Marco Rubio, cujas pretensões presidenciais para 2016 aconselhariam a um caminho para o centro político, foi um dos 18 senadores republicanos que votaram contra o acordo bipartidário que salvou a América do «default».

«O Presidente minou, nestes 16 dias, ao não querer negociar com a House republicana, as condições políticas para uma aprovação da Reforma da Imigração. Essa reforma é agora mais difícil do que era há três semanas», avisou Rubio, momentos depois da aprovação no Congresso.

O alerta está dado: o Presidente não terá uma lua-de-mel dos republicanos, nem mesmo depois de tamanha derrota do GOP nesta dupla crise.

Mesmo tendo sido um acordo mais alargado do que muitos temeram, os grandes fantasmas que ensombram Washington foram apenas adiados.

A 15 de janeiro, o governo Obama volta a deixar de ter financiamento pleno; a 7 de fevereiro, o teto da dívida volta a ser atingido.

Moral da história: este filme pode ser repetido e é necessária, por isso, uma mudança de comportamento por parte dos republicanos.

Terá a direita americana aprendido a lição?

Norman Ornstein, investigador político no American Enterprise Institute, não tem ilusões: «Só quando políticos como Chris Christie ou Jeb Bush e não Ted Cruz ou Marco Rubio tomarem conta do partido é que o Tea Party vai recuar e os republicanos vão voltar a ter um comportamento normal».

Todas as declarações de «tea party darlings» como Ted Cruz, Sarah Palin, Marco Rubio ou Rand Paul apontam para essa risco.

O «supercomité» bipartidário que saiu do acordo de 16 de outubro tem por missão proteger o sistema de futuros «shutdowns» e eventuais incumprimentos decorrentes do atingir do teto da dívida.

Mas, mais uma vez, a América continua dependente de artificialismos do sistema para adiar o essencial.

A «grand bargain» que é necessária entre democratas e republicanos, de modo a chegar a consensos em torno de temas como a redução da dívida e a distribuição fiscal só poderá alcançada se os dois lados estiverem dispostos a fazer cedências.

E isso, manifestamente, está longe de ser possível neste momento em Washington.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca