Na Casa Branca vive-se um tempo de mudança.

Jay Carney, que depois de dois anos na equipa de Joe Biden foi o porta-voz da Administração Obama desde 2011, abandonou esta difícil função de dar a cara nos momentos de falar pelo Presidente, ao fim de três anos na função.

Na hora do adeus, Obama destacou «o incrível profissionalismo de Jay» e admitiu que, por ele, «isto não aconteceria neste momento».

Para o lugar de Carney foi nomeado Josh Earnest, jornalista com duas décadas de experiência na cobertura de Casa Branca, que há alguns anos tem vindo a trabalhar próximo de Obama, tendo sido o principal responsável pelas relações com os media durante a campanha de reeleição, em 2012.

Mas esta não foi a única mudança de peso no governo Obama, nos últimos dias.

Eric Shinseki, antigo general do exército norte-americano, nascido no Hawai (como Obama) com ascendência japonesa, abandonou o posto de secretário dos Veteranos.

Shinseki, ele próprio veterano da Guerra do Vietname, saiu na sequência de um escândalo sobre más condutas em hospitais para veteranos.

O Presidente aceitou a demissão, embora explicando que Eric não teve responsabilidades diretas no que correu mal. «O seu serviço ao país é inatacável. Trabalhou duramente para tentar perceber o que correu mal, mas disse-me que havia a necessidade de mudar para que o problema seja resolvido.»

Obama apontou Sloan Gibson como «a pessoa indicada para preparar da melhor forma as estrutura de apoio para os veteranos de guerra, adequadas aos tempos que vivemos». Mas ainda não o indicou como sucessor de Shinseki no posto de secretário dos Veteranos de Guerra.

Estas duas saídas (nenhuma com relevância política decisiva, mas com algum peso afetivo, porque tanto Carney como Shinseki eram relativamente próximos do círculo pessoal do Presidente) ajudam a definir o arranque da última etapa dos anos Obama.

A dois anos e meio da eleição que definirá a sua sucessão na Casa Branca, Obama prepara a reta final reunindo, cada vez mais, objetivos claros: a criação de um legado, não tanto a preocupação com pormenores que fazem as delícias do dia-a-dia de Washington.

Na passada quinta-feira, um almoço (que não estava marcado na agenda oficial, mas que a Casa Branca não se preocupou muito em esconder), entre Barack Obama e Hillary Clinton constituiu outro sinal de que há novas etapas a iniciarem-se na Casa Branca.

Hillary estará ainda muito longe de assumir seja o que for quanto a 2016. Mas começa a ficar perfeitamente claro que a secretária de Estado do primeiro mandato de Obama terá a passadeira vermelha estendida para a nomeação democrata, incluindo o apoio político e logístico do Presidente.

«Não sei o que ela vai fazer em 2016, mas tenho a certeza que poderá ser uma Presidente efetiva e capaz», considerou Obama em entrevista televisiva recente.

Enquanto isso, em West Point, no discurso anual na mais prestigiada academia militar que forma a elite do complexo militar norte-americano, Barack Obama lembrou a sua perspetiva de «contenção»: «Não é por termos o melhor martelo que vamos achar que todos os nossos problemas são um prego».

Uma definição comunicacionalmente atraente da tese segundo a qual o poder militar americano entrou, sobretudo desde que Obama é Presidente, numa fase instrumental.

Mais importante do que, em termos efetivos, esse poder bélico, na Casa Branca entende-se como mais útil e mais realista um uso profilático desse poder: a «contenção» substituiu o «efeito eventualmente preventivo» que Bush quis fazer valer no Iraque.

Os anos Obama ainda não acabaram, mas é muito provável que venham a ser recordados como a era do pragmatismo levado ao limite.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»