«Estou nesta cidade há 50 anos e já vi o melhor e o pior de Washington. Neste momento, Washington está no seu pior. Pelo clime de paralisação quase doentia que se instalou»

LEON PANETTA, antigo diretor da CIA e secretário da Defesa em parte do primeiro mandato de Barack Obama

A três semanas das eleições intercalares para o Congresso, sobe a tensão política em Washington.

Depois de anos de «gridlock» na capital política, com divergências insanáveis entre os dois polos do sistema partidário a travarem a concretização da agenda política de Obama, duas vezes legitimada nas urnas (2008 e 2012), era de supor que estas «midterms» pudessem ser uma forma de clarificar o ambiente político em DC.

Mas esta não está a ser uma campanha «normal». Do lado democrata, os receios de se perder o controlo do Senado são reais. E isso exigiria um empenhamento direto do Presidente.

A questão é que uma boa parte dos candidatos democratas, seja à reeleição nos respetivos lugares no Congresso, seja ao desafio de posições republicanas, tem fugido autenticamente do apoio de Obama, com medo de que uma colagem às políticas do Presidente seja prejudicial junto dos respetivos eleitorados.

Jay Carney, antigo porta-voz da Casa Branca e agora comentador político da CNN, já lançou o aviso: «Os candidatos democratas têm que ter cuidado em relação à distância a que se colocam das políticas do Presidente Obama».

Essa atitude é especialmente visível em estados que, nas presidenciais, votam tradicialmente no candidato republicanos, mas onde decorrem corridas competitivas para o Senado.

No Kentucky, território conservador em presidenciais, o senador Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Capitólio, está a ter dificuldades em conseguir a sua reeleição, dispondo de vantagem curta sobre a candidata democrata, Alison Lundergan Grimes, atual secretária de Estado daquele território sulista.

Mas para Alison ter esperanças de apear o «eterno» McConnell da representação do Kentucky no Senado, a democrata optou por dizer na campanha que «não é Barack Obama».

«Discordo do presidente na questão das armas e em outros temas», exorta a candidata, que em alguns anúncios até faz gala em mostrar que pega muito melhor numa arma do que o seu opositor Mitch McConnell.

Outro caso é o da senadora Jeanne Shaheen, do New Hampshire: «O presidente deve focar-se nas crises que há neste momento no mundo, em como atacar o Estado Islâmico e outros problemas. Por isso, espero que ele fique em Washington e não esteja no terreno de campanha», comentou Jeanna, à MSNBC.

A política americana tem esse lado quase esquizofrénico: os tema que, a nível nacional, geram maiorias podem ser diferentes, por vezes até contraditórios, com os que valem no plano estadual.

Costuma até dizer-se que «um democrata no Texas é mais conservador que um republicano no Massachussets». Basta prestar alguma atenção às campanhas nos estados para se perceber que é assim mesmo: Mark Begich é democrata e tem boas hipóteses de vencer a corrida no Alaska, estado profundamente republicano, apostando, também ele, numa agenda que, numa eleição presidencial, seria digna do nomeado do GOP e não dos democratas.

Torna-se, por isso, difícil faze leituras de âmbito nacional do que vier a acontecer a 4 de novembro. Mesmo assim, é praticamente certo que na Câmara dos Representantes os republicanos vão manter vantagem larga (ainda que seja de prever que, desta vez, não sejam tão «contaminados» por membros eleitos pelo Tea Party como a «onda» de 2010).

A grande questão está no Senado. Os republicanos precisam de «roubar» seis assentos aos democrata.

De acordo com o «Real Clear Politics», neste momento os democratas têm vantagem em 46 lugares, os republicanos em 45 e há nove corridas em aberto.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»