Era uma guerra que ninguém queria, mas, aqui chegados, parece ser já uma inevitabilidade.

Depois da «guerra estúpida» do Iraque, da «guerra necessária» do Afeganistão, a Síria deverá ser a «guerra inesperada» do segundo mandato de Obama.

A vontade política de Washington em avançar para Damasco é quase nula. Os maus exemplos dos últimos anos desaconselhariam nova aventura bélica. As reduções militares previstas passaram a ser a retórica dominante do Pentágono.

E convém lembrar que, há menos de um ano, o duelo presidencial entre Obama e Romney tinha, na área militar, uma importante «nuance»: o democrata defendia cortes nos gastos e contenção no uso do poderio militar; o republicano queria um aumento do orçamento de Defesa, para garantir a continuidade da «supremacia americana» perante a ameaça da Rússia, da China ou, é claro, das ambições nucleares iranianas.

Todos estes dados apontariam para que Obama retirasse de todas as suas equações presidenciais a aprovação de uma intervenção militar americana numa nova frente.

Só que Barack Obama terá percebido, nos últimos dias, que não tem alternativa: enquanto Presidente dos EUA, será forçado a patrocinar uma ação militar na Síria.

A realidade, por vezes, ultrapassa qualquer cenário hipotético ou calculismo político. O novo paradigma passa pela contenção e pela prioridade ao «soft power»? Certo.

Mas o que, na Casa Branca, não se terá avaliado completamente, nos últimos meses, desde que em Damasco a situação se foi agravando, foram as consequências de uma eventual não intervenção.

É preciso lembrar que toda a retórica da Administração Obama sobre a guerra civil na Síria passou por duas grandes ideias. A primeira era a de que os EUA não interviriam diretamente, mas que estariam dispostos a estudar formas eficazes de apoiar a oposição ao regime de Assad; a segunda era a de que «red line» que Washington nunca poderia permitir ultrapassar seria uma utilização de armas químicas, ordenada por Assad, contra a população civil.

Ora, as últimas semanas mostraram à evidência que essas duas premissas estão desatualizadas. Por um lado, o «efeito dissuasor» não resultou: pelo contrário, terá feito agravar as atrocidades cometidas pelo regime de Assad contra os seus opositores; por outro, o ataque químico que vitimou, com pormenores de malvadez, cerca de 1300 civis nos subúrbios de Damasco, foi a maior de várias violações dessa tal «linha vermelha».

O tabuleiro sírio tem peças marcadas à partida: o Irão é o principal aliado do regime de Assad; a China e a Rússia têm uma conivência ambígua (por vezes crítica, mas no essencial apoiante) do ditador sírio; a Grã-Bretanha e a França defendem a deposição do regime e fizeram-no de um modo talvez ainda mais veemente do que os EUA, nas últimas semanas.

Perante este quadro, Barack Obama não terá outra alternativa: vai mesmo dar luz verde a um avanço de tropas americanas na Síria.

Os próximos dias e semanas definirão o quadro legal e a política de alianças com que se fará esta indesejável (mas, neste momento, inevitável) operação.

Numa fase em que se começa, nalguns meios, a dissertar sobre o «enfraquecimento americano», os EUA não poderiam perder por falta de comparência a este jogo. Até porque sabem que continuam a ser o ás de trunfo: quando entrarem, é certo que, militarmente, vão ganhar.

Falta saber o que acontecerá nos outros planos. O pós-guerra do Iraque e a a retirada do Afeganistão não auguram nada de bom.

O Mundo está perigoso.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca