Em mais uma crónica dedicada à corrida presidencial republicana para 2016, e depois de ter falado sobre o «momento de Jeb Bush», falarei hoje de Rand Paul.

O senador do Kentucky, de 51 anos, oftalmologista de profissão, é filho de Ron Paul, o clássico candidato libertário, que nas últimas duas ou três décadas tem marcado a agenda política americana como representante de uma ala marginal da direita americana, com uma visão minimalista do peso do estado e uma versão a toda e qualquer intervenção fiscal, institucional e até militar.

Se os republicanos têm feito um «shift» para uma direita com laivos de crítica excessiva ao «establishment», desafiando uma abordagem clássica que, durante décadas, dominou a ação política do partido de Lincoln, Teddy Roosevelt e Reagan, a verdade é que a abordagem de Ron Paul nunca conseguiu ser maioritária.

Os republicanos gostam menos do que os democratas de um Estado a meter a mão na vida das pessoas? Certo, na globalidade.

Mas também é verdade que as últimas presidências republicanas (Bush pai e Bush filho) se marcaram pela manutenção de fortes programas sociais (com Bush filho, o Medicare e o Medicais foram alargados e concretizou-se o lançamento do «No Child Left Behind», um programa de inclusão escolar de crianças americanas desfavorecidas).

Moral da história: o «core» do Partido Republicano não é assim tão avesso à ideia de «intervencionismo estatal» para diminuir as desigualdades sociais.

O atual estado do Partido Republicano dá conta da dimensão das divergências internas. Potenciais candidatos como Chris Christie ou Jeb Bush, pelo seu registo, pelo seu percurso e pelas posições já emitidas em relação à plataforma política que pretenderão defender na corrida, bater-se-ão, em traços gerais, para que continue a vigorar uma ideia de junção entre a diminuição das desigualdades sociais e uma primazia (que em traços gerais os republicanos dão) à liberdade empresarial, em detrimento da ideia de «bem coletivo» (ideia mais cara aos democratas).

Um Partido Republicano no seu estado normal colocaria Christie ou Jeb Bush como os candidatos naturais para defrontar Hillary em 2016.

Embora com fases de discurso dúbio, a nomeação de Romney em 2012 e McCain em 2008 mostraram que essa abordagem clássica continua a prevalecer nos momentos certos do Partido Republicano.

Mas o peso excessivo do «Tea Party» nos últimos anos da direita americana está a dar uma oportunidade acrescida a outro tipo de soluções.

Em futuras crónicas, falarei de Ted Cruz, Marco Rubio, Paul Ryan, Mike Huckabee ou até de Michele Bachmann e Sarah Palin.

Mas no leque de potenciais pretendentes republicanos para 2016, Rand Paul surge como um caso especial.

Rand foi um dos líderes da «reação Tea Party» aos primeiros anos da presidência Obama, obtendo grande resultado na eleição para o Senado, em 2010.

Desde aí, agarrou momento mediático e assumiu posições particularmente críticas contra Obama, mas também contra uma certa moderação que considera existir em setores republicanos, em relação ao Presidente.

A diferença do filho Rand para o pai Ron é que o senador do Kentucky começou a sua caminhada «por dentro» do Partido Republicano, enquanto o pai (que nunca foi senador), assumiu.se sempre como um «outsider».

Ron preferiu sempre correr por fora. Chegou a ter bons resultados em primárias, captou atenção mediática, fixou eleitorado fiel e mobilizado: mas nunca descolou de 10/12 por cento, números impossíveis de viabilizar uma nomeação.

Terá Rand Paul hipóteses de ser nomeado? Não é o mais provável, mas é possível. Peter King, republicano moderado de Nova Iorque, não o poupa: «Rand Paul é um político com posições paranóicas. Tende para a histeria. Seria péssimo que o partido fosse por esse caminho».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»