Barack Obama passa por um dos momentos mais delicados desde que é Presidente dos Estados Unidos da América.

A nível interno, o acordo bipartidário que passou largamente nas duas câmaras do Congresso, e adiou por alguns meses a dupla crise que paralisou o governo federal por 16 dias, não foi suficiente para garantir um clima de distensão política em Washington.

A divisão interna do Partido Republicano, acentuada pelas diferenças de posição de congressistas do GOP em relação à forma de evitar que os EUA caíssem no «default», é um problema paralelo em relação a algo que se mostrou ser uma condição constante da política americana nos últimos cinco anos: a hostilidade dos republicanos (sejam eles moderados ou radicais) contra Barack Obama.

Aquilo que parecia ter sido uma vitória política para Obama no pós-shutdown, ao manter a implementação do ObamaCare nas prioridades políticas para os próximos meses, está a revelar-se uma tremenda dor de cabeça para a atual administração americana.

Primeiro, foram as falhas informáticas na aplicação de pedidos de seguros de saúde. Depois, o pedido de desculpas do próprio Presidente, assumindo que uma das garantias que deu em campanha («quem já tem o seu seguro de saúde não o vai perder») não poderá, afinal, ser cumprida: estima-se que 3,5 milhões de americanos possam perder o seguro de saúde que têm do seu emprego, ao aderirem ao «ObamaCare».

Estes últimos acontecimentos estão a gerar uma nova ofensiva republicana contra o Presidente.

Se, no plano interno, Obama voltou a ficar em claro défice político, desbaratando em semanas o fôlego que parecia ter ganho com a aprovação bipartidária do aumento do teto da dívida, a nível externo os estilhaços políticos a espionagem da NSA, revelados pelo caso Snowden, são uma preocupação crescente para a Administração Obama.

O tema merece reflexão aprofundada em próximas crónicas. Não é de agora (amigos espiarem amigos é feio, mas tem sido prática corrente nas últimas décadas) e, pelo que temos sabido nos últimos meses, tem vindo a agravar-se.

Os EUA têm estado na berlinda, por aquilo que se tem revelado. Mas franceses e alemães também têm as suas formas de espionagem (com menos armas, é certo).

É mesmo preciso? A avaliar pelas revelações publicadas nos jornais que concertaram com Snowden uma espécie de «revelações a conta-gotas», tem sido uma necessidade prioritária dos serviços de inteligência americanos, pelo menos desde o 11 de Setembro de 2001.

Os fins justificam os meios? Na luta contra o terrorismo, para a mentalidade americana, ainda tão traumatizada depois do 9/11, o objetivo de evitar um novo ataque da escala dos que aconteceram naquele trágico dia tão fresco na memória, mas ocorrido há 12 anos e dois meses, tem justificado mesmo tudo.

Só que os Estados Unidos terão que decidir se, do ponto de vista diplomático, não será melhor estabeleceram fronteiras.

As declarações recentes do secretário de Estado, John Kerry, apontam nesse sentido, ao admitir que se terá ido «longe demais».

Mas Kerry também apontou uma outra realidade que nos ajudará a perceber como foi possível que os EUA tenham escutado Merkler semanas antes da primeira eleição da chanceler alemã, ou Dilma Rousseff (o que até já levou a uma anulação duma cimeira EUA/Brasil).

É que o pós 11 de Setembro gerou um autêntico «Big Brother» americano, na luta contra o terrorismo: uma gigantesca máquina burocrática entre agências, com a obsessão de evitar novo ataque, que escapará à coordenação direta da Casa Branca.

Se até a atual administração se queixa do «Big Brother» criado pelo poder tecnológico americano, quem controla o olho do grande irmão?

Continuaremos este tema na próxima crónica. Valerá, certamente, a pena.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»