Na histórica corrida à nomeação presidencial democrata de 2008, Hillary Clinton partiu com uma vantagem de 20 a 30 pontos sobre Barack Obama e John Edwards.

Parecia uma diferença difícil de reverter, mas o evoluir das primárias foi mostrando uma recuperação espetacular de Obama.

Numa fase em que o mais provável passou já a ser nomeação do então senador pelo Illinois, um conselheiro próximo de Hillary desabafava: «O problema para nós é que esta corrida tinha tudo para ser ganha por uma senadora democrata que nasceu no Illinois, mas entretanto apareceu um senador democrata que nasceu numa manjedoura...»

A imagem foi aplicada em altura de plena «Obamania», meses antes da primeira eleição do primeiro presidente negro da América.

Seis anos depois, os primeiros sinais para a corrida de 2016 são ainda mais favoráveis a Hillary. Com um avanço que oscila entre os 60 e os 70 pontos, a antiga Primeira Dama dos EUA já nem precisa de fazer frente a «toques de magia» que eventuais rivais internos pudessem derramar para as hostes democratas.

Desta vez, Hillary tem quase tudo a seu favor: uma vantagem nunca vista numa corrida presidencial americana (passeio para a nomeação e avanço sólido contra todos os potenciais opositores republicanos); uma base financeira alargadíssima (em parte iniciada na campanha Hillary-2008 e outra herdada das duas campanhas presidenciais de Obama); uma economia americana a recuperar, com sinais de que, por 2016, possa ter números já superiores ao que tinha antes da crise de 2008 (o que poderá beneficiar a futura nomeada democrata).

Hillary só tem vantagens? Não. Tem dois ou três problemas que terá que contornar nos próximos dois anos.

Primeiro, a idade. Em novembro de 2016, Hillary Clinton terá acabado de completar 69 anos. É certo que a energia que exalou no mandato como secretária de Estado (mais de cem viagens pelo mundo) lhe dão força para minimizar o «tema idade». Mas os problemas de saúde que acusou no final do mandato, por setembro e outubro de 2012, serão certamente um ponto a acompanhar nos próximos tempos.

Uma presidência Hillary, sem dúvida histórica por constituir a primeira mulher a chegar à Casa Branca, confere, ao mesmo tempo, um certo «olhar para trás», não muito comum na política americana.

Bill foi eleito pela primeira vez para a Casa Branca em 1992: 24 anos antes da possível eleição de Hillary. Se ela for mesmo a sucessora de Barack, passar-se-á de um Presidente eleito com 47 anos (a idade de Obama em 2008), para uma Presidente eventualmente escolhida com 69 anos (a idade de Hillary em 2016).

A questão é que, na política, os ciclos têm uma certa lógica. Um dos pontos fracos apontados a Obama no início foi, precisamente, a sua inexperiência em cargos executivos. O mesmo nunca se poderá dizer de Hillary, que habita a alta política americana há 40 anos.

Hillary Diane Rodham Clinton nasceu em Chicago, a 26 de outubro de 1947. Formada em Ciências Políticas, em Wellesley, e em Direito, em Yale. Filha de Dorothy e Hugh Rodham, casal republicano e conservador, chegou, na adolescência a fazer campanha por Barry Goldwater, candidato que perdeu para o democrata Lyndon Johnson, em 1964.

Mas nos anos de faculdade, já era uma liberal, com agenda progressista. Aluna brilhante, foi escolhida para oradora doseu curso em Wellesley, e chegou a Yale, no início da década de 70, onde conheceu Bill Clinton.

Ao tornar-se a jovem esposa do mais jovem governador de estado da história americana (Bill Clinton governou o Arkansas com 28 anos), Hillary começava um percurso político de quatro décadas, que inclui os cargos de Primeira Dama dos EUA (1993-2001), senadora democrata por Nova Iorque (2001-2009), candidata presidencial nas primárias democratas (2008) e secretária de Estado norte-americana (2009-2013).

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»