«A Rússia é uma potência regional e não constitui ameaça real aos EUA. A forma como os russos continuam a perturbar os seus vizinhos mostra a sua fraqueza e não a sua força».

«Os nossos aliados da NATO são os nossos parceiros mais próximos no cenário internacional. A Europa é a pedra angular das relações entre os Estados Unidos e o Mundo».

BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos



«Muitas pessoas na Europa fizeram leitura exagerada da relação dos EUA com o Pacífico»

«O Presidente Obama disse que queria reforçar os laços com a Ásia, mas isso não significa que quisesse enfraquecer os laços com a Europa. Somos um grande país, podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo»

PETER CHASE, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa, entrevista ao Público

A crise da Crimeia pôs a nu divergência fundamental entre os europeus e americanos, por um lado, e russos, por outro, na forma de encarar as relações internacionais.

Quem vive do lado ocidental dá prioridade à estabilidade das fronteiras, ao respeito pelos tratados e à cooperação entre os Estados; a Rússia coloca em primeiro lugar a razão da força, em nome dos seus interesses nacionais.

Nos últimos dias, tem sido muita recordado o «precedente» do Kosovo para se apontar uma vulnerabilidade nesta linha de raciocínio.

Como em tudo na política internacional, o tema não é linear. Convém recordar que, no Kosovo, não houve uma anexação, nem sequer uma violação da integridade territorial por tropas de outro país. Houve, de facto, bombardeamentos da NATO sobre o que é hoje a Sérvia, mas a proclamação da independência do Kosovo decorre num contexto completamente diferente desta «anexação unilataral» por parte da Rússia, ao arrepio do direito internacional e supostamente legitimada num referendo que nem sequer colheu caução por parte da ONU.

A recente cimeira EUA/UE, que levou Barack Obama a Bruxelas pela primeira vez desde que é Presidente, reforçou esta profunda divisão de posições.

Um mérito Vladimir Putin estará a ter, com esta «crise ucraniana»: reaproximar Washington de Bruxelas.

Obama, que por 2008 era endeusado pelos líderes europeus, passou em poucos anos a «desilusão» na leitura deste lado do Atlântico. Porque prometeu no primeiro mandato ser um «Presidente do Pacífico», essencialmente preocupado em travar a ascensão da China. E, depois, pelas revelações constrangeradoras do «caso Snowden», com a perceção de a NSA escutaria conversas privadas de líderes europeus.

A Administração Obama dedicou os últimos meses a tentar sarar as feridas. Hoje mesmo, o Presidente terá recebido uma proposta de reforma da NSA, no sentido de diminuir o alcance das escutas, para que a América não volte a correr o risco de ser acusada de espiar os seus amigos e aliados. Obama defende uma NSA mais limitada, que só possa atuar com mandato judicial.

E será que as ondas de choque da «espionagem» da NSA poderá afetar a concretização da anunciada plataforma transatlântica de comércio e investimento euro-americana?

«Posso garantir que o governo americano não dá informações às nossas companhias. Mas os europeus estão a pensar em novas regras para a proteção de dados. Ora, isso não é só um problema com os EUA», recorda Peter Chase, vice-presidente da Câmara do Comércio dos EUA para a Europa.

Na visita à Europa, Obama insistiu na ilegalidade do referendo na Crimeia, recordou que a aliança euro-americana é a «pedra angular» do posicionamento dos EUA e no Mundo e mostrou que o caminho para travar a ameaça russa é insistir na via das sanções diplomáticas, militares e económicas.

A Rússia já terá perdido, nas últimas semanas, em fuga de capitais decorrentes das sanções pós-Crimeia, o equivalente a 3% do PIB (tanto como em todo o ano de 2013).

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»