Os últimos dias parecem ter mostrado uma viragem dramática na questão síria.

Barack Obama está a ser acusado, em várias frentes, de ter deixado a liderança do problema para Vladimir Putin e que isso até poderia significar uma perda de relevância dos EUA em relação à Rússia neste tipo de situações.

Terá sido mesmo assim?

Na sequência do ataque químico de 21 de agosto passado nos arredores de Damasco, e dos relatórios que recebeu dos Serviços Secretos e do Departamento de Estado, Obama considerou que Assad tinha violado de forma inaceitável a «red line» apontada.

Perante a insistência da versão russa e iraniana de que o regime de Assad não tinha feito ataques químicos, o Presidente dos EUA decidiu preparar uma intervenção militar sem o apoio da ONU (perante o veto previsível de Moscovo).

O problema é que Obama começou, nesse ponto, a perceber que esta seria tudo menos uma intervenção consensual. Teve o apoio de Cameron, mas não do parlamento inglês; de Paris, recebeu não só apoio político, mas também incentivo; mas de Berlim, e com Merkel a dias de tentar a reeleição, só beneficiou de ajuda ao nível de informação, mas com princípio de não entrar nas acções militares.

Para lá da falta de «consenso internacional» quanto aos contornos da operação, a Administração Obama conheceu, sobretudo, obstáculos ao nível da opinião pública.

Todos os estudos feitos nas últimas semanas apontaram para que os americanos não queriam uma intervenção militar. Por muito que o Presidente se tenha esforçado em explicar que «a Síria não é o Iraque, nem mesmo o Afeganistão», que esta ação não implica «boots on the ground» nem sequer uma invasão a Damasco que provocasse a queda do regime de Assad («não somos nós que iremos resolver as guerras dos outros»), a verdade é que a perceção tem mais peso que os factos.

E a perceção aponta para que as opiniões pública nos EUA e nos países europeus não tenham a mínima vontade de ver os seus governos patrocinarem uma ação militar.

O interesse de Obama, Prémio Nobel da Paz, em ficar com a fama de ser uma espécie de «Bush em versão suave» (a expressão é de Oliver Stone) era muito reduzida.

Mais uma vez, interessa pôr de lado a perceção e olhar para os factos: Obama traçou uma «red line» e, porque dá crédito aos relatórios que recebe do terreno, para ser coerente com a sua posição tinha que defender agora uma intervenção, nos termos que definiu. Tudo apontava para uma aprovação alargada no Congresso de maioria republicana, que, noutras matérias, tantas vezes tem estado contra as visões do Presidente.

Tudo mudou na véspera da data em que estava prevista a votação no Congresso. Num golpe de asa, Putin avançou com uma proposta de desmantelamento do arsenal químico de Assad, fator que retirou o argumento americano da urgência de um ataque.

Subitamente, os papéis parecem ter-se invertido: Putin e também a diplomacia de Teerão ficaram com o lado pacificador, Obama vestiu a pele do lobo que queria ir para a guerra, e teve, à última hora, de travar os seus ímpetos.



A verdade é que se não fosse o ultimato americano para um ataque nunca Assad teria aceite um plano destes. A Síria, que sempre se recusara a assinar o Tratado Anti-Armas Químicas, sentiu vontade súbita de aderir ao acordo, certamente temendo as consequências que uma ofensiva americana teria no regime.

Putin pode, nesta fase, ter saído como o vencedor da crise. Se a diplomacia ganhou à última hora, fantástico.

O diabo está nos detalhes que se podedem seguir: vai Assad cumprir o desmantelamento, enquanto a guerra interna prossegue em força na síria? Se os rebeldes não acreditam na eficácia do plano, que efeitos práticos terá um acordo que nunca conhecerá frutos antes de novembro?



A crise síria continua a ser séria.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca