«É uma terrível tragédia

Barack Obama, Presidente dos EUA

«Todos os indicadores apontam para que tenham sido os separatistas russos a abater o avião. Depois deste caso, os países europeus devem sentir-se encorajados a endurecer sanções contra a Rússia»

Hillary Clinton, ex-secretária de Estado norte-americana

«O que aconteceu é absolutamente chocante. Os responsáveis têm que pagar por isto»

David Cameron, PM britânico

«Esta tragédia não teria acontecido se houvesse paz naquela região ou se os combates no terreno não tivessem reatado. A responsabilidade, sem qualquer dúvida, é do governo do território onde aconteceu tragédia assustadora. Isto é absolutamente inaceitável»

Vladimir Putin, presidente russo

Uma tragédia inimaginável. Um caso gravíssimo que afeta relações entre estados, cumplicidades entre líderes.

Um recuo brutal num caminho que teria que ser feito de reaproximação entre Washington e Moscovo, depois do clima de divergências nos últimos meses, por causa da Crimeia e do agravar da tensão no Leste da Ucrânia.

Um avião comercial ser abatido nos céus da Europa por um míssil que, tudo indica, será de fabrico russo poderá ser algo de muito próximo de um «ponto de não retorno».

A queda do Boeing 777 da Malaysia Airlines, em solo ucraniano, numa zona próxima da fronteira leste com a Rússia, em pleno cenário de conflito entre as forças armadas ucranianas e separatistas russos que proclamaram a «República Popular de Donetsk», gerou a maior tragédia da aviação civil dos últimos 18 anos, com a morte de 298 pessoas (283 passageiros e 15 tripulantes).

No momento em que esta crónica é escrita, tinham sido apuradas as nacionalidades de 189 holandeses, 44 malaios, 27 australianos, 12 indonésios, nove britânicos, quatro alemães, quatro belgas, três filipinos, um canadiano, um neo-zelandês, um chinês (Hong Kong) e um israelita.

Para lá da enorme tragédia humana, o caso implica fortes repercussões políticas e mexe com várias sensibilidades diplomáticas.

Nos minutos que se seguiram à tragédia, começou o «passa culpas» entre Kiev e Moscovo. O governo ucraniano, primeiro através do seu ministro do Interior, mais tarde pelo primeiro-ministro da Ucrânia, foi claro em apontar responsabilidades aos rebeldes russos, a quem acusaram de terem cometido «um ato terrorista».

Putin, que ao longo de todo o conflito no Leste da Ucrânia manteve a posição de demarcação com os separatistas que combatem as autoridades ucranianas (apesar dos rebeldes serem, grande parte deles, antigos elementos das forças armadas russas), responsabilizou o governo de Kiev por esta «tragédia assustadora».

Washington reagiu de forma crítica para com Moscovo. Obama, no Delaware, preferiu não apontar claramente o dedo a Putin, mas lembrou tratar-se de «uma grande tragédia». Enquanto isso, os serviços secretos norte-americanos libertavam a indicação de que haveria mesmo dados a apontar para que um míssil terra-ar tivesse sido a causa da queda do voo MH17.

O dado reforçava a acusação de que pudesse ter sido um míssil de fabrico russo, material que supostamente estará na posse dos rebeldes russos. De Moscovo, para lá da recusa dessa acusação, vinham também indicações de chefes militares, apontando para que as forças armadas ucranianas também possuam mísseis «Buk».

Nas redes sociais, mensagens postadas minutos depois da tragédia por elementos separatistas, nomeadamente por Igor Girkin (ou Igor Strelkov), auto-proclamado ministro da Defesa da República Popular de Donetsk, festejava o abate de um avião.

Terá sido um engano? Terão os separatistas pensado ter abatido um «Antonov» ucraniano?

Os próximos dias serão decisivos para percebermos se ainda há caminho para trás na relação com a Rússia. Mas nada ficará como antes.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»