Vai mesmo haver guerra na Ucrânia? A pergunta tem-se repetido, um pouco por todo o Mundo.

As últimas horas parecem indicar que não. Mas mesmo não existindo um cenário de conflito militar, a verdade é que as movimentações de tropas russas não deixa grandes dúvidas: Putin está a dar prioridade à preservação do seu «espaço vital», relegando o princípio da «integridade territorial» ucraniana.

É claro que a primeira reação é de espanto. Receio. Talvez até de choque: vermos a entrada, sem aviso prévio e à revelia de qualquer acordo internacional, de vários milhares de soldados russos em território ucraniano faz-nos recuar aos tempos da Guerra Fria.

A jogada de Putin tem um pouco dessa lógica: de repente, a Rússia do G8, a Rússia que ainda não faz parte da NATO mas até há pouco tempo aprofundava relações com os seus membros, ignora os avisos de EUA, Reino Unido e outras potências internacionais e sinaliza que continua a ter como grande prioridade o controlo hegemónico daquela região.

Erro crasso de Putin? Possivelmente. Mas sem dúvida que também uma demonstração de força do «grande urso moscovita» sobre o segundo maior país europeu em área e que detém interesses comerciais, políticos e militares de que os russos não pretendem abdicar.

OS EUA foram claros na primeira resposta: suspenderam a cooperação militar com a Rússia. De Moscovo já surgiu a resposta: a América vai perder economicamente com isso. A Rússia promete tornar-se independente no plano energético.

A Rússia é agressiva, mas é racional. Gosta de exibir o seu poder musculado, mas, ao contrário da tradição das democracias ocidentais (cujos líderes gostam mais de falar do que fazer), a elite política de Moscovo fala pouco e age quando menos se espera.

Isso não significa que a Rússia tenha perdido a cabeça e passe a entrar numa aventura militar que poderia terminar numa grande escala, de conflito direto com as potências ocidentais.

Putin é suficientemente inteligente para saber que nunca poderá afrontar diretamente os EUA e a NATO. Isso, simplesmente, não acontecerá.

Os próximos dias serão marcados por mais tensão política e diplomática, ameaça de sanções de EUA e UE à Rússia (eventualmente até a ameaça de expulsão da Rússia do G8).

Tudo se precipitou após a «Revolução da Praça Maidan» e a consequente «fuga» do ex-Presidente Ianukovich, completamente apoiado pela Rússia.

Kiev passou a virar-se para o Ocidente, o que parecia ter sido uma boa notícia. Moscovo primeiro calou-se, depois ameaçou em força. Fazendo avançar 16 mil tropas para a Crimeia, acusando Kiev de ter havido «golpe de estado».

Putin, que na crise síria tinha saído por cima, ao travar Obama à última hora, convencendo-o que se fizesse um «ataque cirúrgico» a Assad estaria a violar a «integridade territorial» da Síria, esqueceu esse princípio nesta questão ucraniana.

Qual é a diferença? Nas mentes dos líderes russos, possivelmente porque vêem na Crimeia território seu e não ucraniano.

E agora?

Há quem veja saída provável para a Crimeia algo parecido com o que sucedeu com a Ossétia do Sul, que após a intervenção militar russa de 2008 declarou independência da Geórgia (e na prática é administrada pela Rússia).

Este cenário será mais imaginável do que, propriamente, uma secessão da Ucrânia em «Ucrânia Ocidental» e «Ucrânia Russa».

Este é, por isso, essencialmente um problema regional, que terá que ser resolvido pela Rússia e pelas novas autoridades ucranianas, coma Crimeia como principal foco.

Ninguém tem interesse real num conflito militar em grande escala. E ainda há tempo para o evitar. No telefonema de hora e meia, no passado sábado, Obama avisou Putin: «Uma ação militar na Ucrânia terá custos».

Voltarei, obviamente, a este tema em nova crónica, nos próximos dias.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»