A inesperada aproximação entre Estados Unidos e Irão tem tudo para ser a grande história diplomática dos últimos anos.

A crise síria esteve a um passo de se transformar numa intervenção militar que ninguém queria: Obama defendia-a como recurso que entendia ser o último, perante uma impossibilidade de resolução na ONU, com veto russo; a Rússia e o Irão temiam-na, pela pressão que iriam ter do regime de Assad para se envolverem militarmente; Israel fez tudo para convencer os EUA para a evitar, sabendo que, perante a incapacidade bélica dos sírios de ter resposta direta aos americanos, os israelitas seriam os alvos do arsenal de Assad.

Ter ficado na fotografia como o tipo que recuou foi o preço a pagar para não se meter numa intervenção que tinha tudo para ter um «pós» fora do controlo e completamente «off message» de um Presidente cuja caminhada para a Casa Branca foi baseada na luta contra a guerra do Iraque.

Na política internacional, nem sempre a primeira impressão é a que conta.

Se é certo que a primeira impressão da crise síria foi a de que Obama estava isolado na intenção de avançar para uma ofensiva militar contra Assad e que foi a entrada em jogo de Putin e a proposta de mediação russa que fizeram evitar o pior, nestas coisas, nunca há um fim de conversa.

As semanas seguintes ajudaram a clarificar as posições. O presidente americano reforçou na Assembleia Geral da ONU que o uso da força tem que ser sempre o último recurso. Mas recordou uma ideia que dominou um dos seus melhores discursos de sempre, o da aceitação do Nobel: «Vivemos num mundo de escolhas imperfeitas».

Para Obama, a crise síria voltou a mostrar essa tensão em que os EUA, na posição liderante que ainda ocupam no mundo, continuar a assumir. Uma espécie de «glorioso fardo» que pretendem continuar a carregar: «Os EUA não podem ser o remédio de todos os males, mas também não podem ficar indiferentes à fria lógica das matanças em massa».

Nesse discurso na ONU, Obama revelou a leitura que tem do que devem ser os EUA nesta fase de transição de influências e de poderes no tabuleiro internacional: «O maior risco para o mundo nos próximos anos não é que os Estados Unidos tentem construir impérios no exterior, seria o preço a pagar pelo caos e pela desordem se os americanos escolhessem ficar em casa.»

Nesta ideia, Obama mostra quase um desabafo em relação ao que, na questão síria, foi a interpretação quase bipolar de muitas opiniões públicas sobre o que os EUA deveria fazer, perante o massacre que se assiste há dois sobre a população civil: quando não intervieram, eram acusados de ser cúmplices; quando estiveram na iminência de agir, voltaram ser agitadas os fantasmas do «imperialismo americano».

Com os louros da resolução da crise síria a serem atribuídos a Putin (o acordo Kerry/Lavrov feito em Genebra teve vontade americana, mas criação russa), Obama precisava de um trunfo lançado rapidamente, capaz de mostrar que a sua política para a região está a ter frutos.

Na verdade, esse trunfo já tinha acontecido: foi a eleição, há apenas dois meses, de Hassan Rohani.

O «charme diplomático» do novo presidente iraniano já se tinha notado, em declarações como «não temos qualquer interesse em produzir armas nucleares», «o Irão e os EUA são duas grandes nações» ou na assunção de que o holocausto existiu mesmo. Nunca o seu antecessor, Ahmadinejad, tomou posições desta moderação.

Os novos ventos de Teerão abriram uma janela que Obama quis abrir. E, pela primeira vez em 30 anos, os presidentes de EUA e Irão falaram ao telefone. De Telavive, Netanyahu vê este «namoro» com muita desconfiança. E só as próximas semanas dirão se esta aproximação Washington/Teerão tem mesmo pernas para andar.

Se tiver, será a grande história da diplomacia dos últimos anos largos.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca