Será Barack Obama «o pior Presidente desde a II Guerra Mundial»? Claro que não.

Um levantamento pelos triunfos do Presidente, desde que tomou posse a 20 de janeiro 2009, desmonta essa ideia: aprovação da Reforma da Saúde, o maior programa federal desde o «New Deal» de Roosevelt e maior investimento numa área social desde a «Grande Sociedade» de Johnson; eliminação de Bin Laden e outros líderes da Al Qaeda; redução drástica da noção de «risco de terrorismo» em solo americano; aposta em novas energias e crescimento dos EUA como potência energética.

Acima de tudo isto, como condição necessária para todas as outras conquistas, Obama ficará para a História como o Presidente que evitou que a América caísse numa Grande Depressão económica equivalente ou pior à dos anos 30, graças a fortes estímulos federais, e foi preparando a Economia americana para um crescimento lento, mas sustentado, e que se traduz, nos últimos cinco anos, na criação de nove milhões de empregos.

Recuperar o que se perdeu é sempre mais custoso do que gozar os louros de algo que foi conquistado. Como em tudo na vida, também em política demora muito mais construir do que destruir.

Obama beneficiou do desastre da parte final de Bush (2008) e da colagem artificial de Romney à ala direita dos republicanos (2012).

Mas, chegado aos últimos dois anos e meio do seu segundo mandato, ainda não conseguiu resolver este dilema: como candidato presidencial, foi eficaz e brilhante, em dois momentos políticos bem diferentes (venceu claramente as corridas de 2008 e 2012), muito devido a uma máquina eleitoral especialmente bem montada; como Presidente, nunca conseguiu passar no teste da popularidade, sendo quase sempre visto pelos americanos como um líder impopular.

Sondagem recente da Universidade de Quinnipiac aponta para que um terço dos inquiridos considerem Obama «o pior Presidente desde 1945». O atual inquilino da Casa Branca aparece mesmo em primeiro lugar nesse top indesejado, seguido do seu antecessor, George W. Bush, com 28%, e de Richard Nixon, o único Presidente destituído do cargo, com 13%.

É sempre preciso olhar para este tipo de sondagem com alguma perspetiva.

Por um lado, é normal que as pessoas se lembrem mais de quem está a exercer o poder. E atendendo ao elevado grau de contestação de vários setores conservadores e ultraconservadores a este Presidente, esse tais 33% que apontam Obama como «o pior» nem será um valor assim tão elevado. De resto, a soma de Bush filho com Nixon, ambos republicanos, até é superior ao valor indicado para Obama.

Seja como for, há alguns aspetos a apontar: Obama estará a pagar, essencialmente, por duas questões que possivelmente já não vai conseguir resolver, no seu «legado» como 44.º Presidente dos EUA.

A primeira tem a ver com o modo exerce o poder de «líder do país mais poderoso do Mundo». A forma como tem lidado com assuntos como a Síria, a Ucrânia e agora também a nova ameaça iraquiana, optando por uma política de «contenção» e «dissuasão», deixando de longe as «boots on the ground», numa via de apoio a outros países e atores diretamente envolvidos nos focos de conflito, integra-se na sua visão do Mundo, mas colide com quem, na América, o acusa de estar a «diminuir a força dos EUA».

A segunda é o «gridlock» com o Congresso. A paralisia legislativa que tem marcado os anos Obama está a adiar, ou mesmo anular, ideias fundamentais deste Presidente, como o «gun control» ou o apoio à classe média e aos mais desfavorecidos.

O problema será mais do sistema da «contrapesos» da política americana, não tanto de uma visão errada do Presidente. Mas em política o que conta são as perceções.

Não. Barack Obama está longe de ser «o pior Presidente desde a II Guerra Mundial». Mas corre o risco de ficar com essa fama.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»