Nesta segunda crónica dedicada ao tema da espionagem americana, posta a nu, em revelações fatiadas na sequência do caso Snowden, há uma ideia forte a reter: a de que, mesmo não sendo um «programa Obama» (ela atravessa várias administrações americanas), a verdade é que o Presidente dos EUA vê agravada a noção de que nem sempre podemos acreditar nele.

Há um «teste da confiança» que Barack Obama terá que consegue passar. É ele o culpado do programa PRISM? Não, não é. Esse programa, colocado no topo da agenda mediática nos últimos meses pelos estilhaços do caso Snowden, não é doutrina presidencial, mas terá, no mínimo, o beneplácito do titular da Casa Branca.

A luta contra o terrorismo tem sido, no geral, bem sucedida, ainda que com interrupções assustadoras (Boston em abril foi a mais recente). Mas não justifica tudo.

Nas últimas semanas, houve sinais claros de desconforto dentro da própria administração americana. Depois de semanas a levar com revelações constrangedoras, que puseram em causa a relação de forças com aliados de sempre dos EUA (sobretudo países europeus, mas também o Brasil, por exemplo), Barack Obama iniciou a gestão de danos sobre este assunto com a promessa de rever os poderes de acesso a dados privados de cidadãos e mesmo políticos destacados, por parte da NSA e outras agências de informação americanas.

De acordo com documentos libertados por Edward Snowden, dirigentes de países como Brasil, França, México e Alemanha (incluindo o telemóvel de Angela Merkel nas semanas que antecederam a sua primeira eleição) foram alvo das escutas da NSA.

Por muito que Obama e Kerry se esforcem em explicar que o esforço de deteção tem por objetivo «compreender melhor o Mundo» e que «ninguém quer espiar detalhes privados de ninguém», a verdade é que esta dualidade entre o longo braço das agências de informação americanas e o discurso contido dos mais altos responsáveis da administração dos EUA agrava a sensação de crise de confiança nos responsáveis políticos.

Este é um daqueles temas em que é difícil explicar as vantagens (ainda que elas existam) e fácil identificar o desconforto.

Obama, sabendo disso, tem carregado na tecla da necessidade de simplificar procedimentos e diminuir o peso e poder da «burocracia entre as agências». Mas o que vemos, essencialmente, são tensões entre aliados que nunca imaginaríamos que viriam a pôr em causa as suas relações com os EUA.

Será isto irreversível? Claro que não. Devemos olhar para estas tensões como uma fase passageira entre longos parceiros que, no essencial, se unem e não se dividem.

Mas também não é prudente ignorar estes sinais. Uma das asserções mais populares da análise internacional nos últimos dias diz-nos que «os Estados Unidos estão a perder o seu poder dominante».

Em crónicas anteriores já demos conta de vários exemplos que desmontam, no essencial, esta tese.

Mas este caso, que se prolonga no tempo na agenda mediática internacional, pela forma faseada como Snowden e os jornalistas que escolheu para lançar as «bombas» sobre os pormenores da espionagem americana, está a ser especialmente penalizador para a autoridade natural que a América exerce no Mundo. E é pasto para retóricas populistas anti-EUA como as que são usadas por Evo Morales, na Bolívia, ou Nicolas Maduro, na Venezuela.

Nos últimos dias, Obama está a tentar passar no «teste da confiança», a nível interno, pela implementação do ObamaCare (tão acidentada nesta fase mais recente).

Mas tem, a longo prazo, um outro teste ainda ainda mais profundo a ultrapassar: é possível que o resto do Mundo, que tanto o promoveu em anos anteriores, continue a acreditar nele?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»