A Presidência Obama apresentou, nos últimos dias, dois «mínimos» de sinal contrário: um positivo (5,9%, a mais baixa taxa de desemprego desde que chegou à Casa Branca), o outro negativo (uma taxa de aprovação de apenas 40%).

A poucas semanas das eleições intercalares, os democratas poderiam ter trunfos económicos a apresentar junto dos seus eleitores.

A América está há 55 meses seguidos a criar postos de trabalho e setembro terminou com a mais baixa taxa de desemprego desde o verão de 2008: 5.9 por cento.

Curiosamente, há dois anos, num debate presidencial para a campanha de 2012, Mitt Romney prometera que, se fosse eleito, deixaria a América com um desemprego de... 6% até ao fim do mandato, ou seja até janeiro de 2017.

Ora, Obama, menos de dois anos antes dessa data, obteve a meio do seu segundo mandato um resultado até melhor que esse, no que toca à criação de emprego.

A par disso, e certamente relacionado com esse bom resultado, está uma tendência de crescimento na ordem dos 3%, com forte componente do investimento privado e do consumo interno.

Sucede que esses dados económicos animadores da economia americana não estão a ser suficientes para uma perceção globalmente positiva do desempenho político do Presidente.

As hesitações na resposta à ameaça do Estado Islâmico, e mesmo o caminho traçado por Obama na liderança rumo a uma «destruição da ameaça jihadista», que tarda em dar resultados, vão sinalizando dados que estão a marcar pontos negativos na avaliação da política externa do Presidente.

Ao mesmo tempo, a instabilidade bolsista (em contraciclo com o crescimento económico) reforça a ideia de que os consumidores e mesmo os investidores ainda não estão convencidos da suposta robustez do caminho económico que a América está a tomar.

Mas o que, essencialmente, está a falhar no segundo mandato de Obama é, sem dúvida, a relação com o Congresso.

O «gridlock» que marca a relação entre a Casa Branca e o Capitólio nos anos Obama não dá mostras de ter solução. E «congela» a agenda que o Presidente relegitimou nas urnas em novembro de 2012: imigração, redução da dívida, reforma fiscal.

Dois anos depois da reeleição, estes e outros pontos têm sido adiados: e há um sério risco de que uma possível derrota dos democratas no Senado no próximo dia 4 de novembro torne o caminho do Presidente ainda mais apertado, para os últimos dois anos.

Contraditório? Paul Krugman, na «Rolling Stone», acha que sim e explica, em artigo com o título «Em Defesa de Obama»: «Obama tem sido um dos mais bem-sucedidos presidentes da história da América.»

«No que toca a Obama, tenho estado sempre fora da corrente. Quando em 2008 os liberais estavam excitados com ele e o candidato tinha fortes índices de popularidade, estava cético.»

Mais à frente, Krugman considera: «Não estava enganado. Obama foi ingénuo. Enfrentou uma oposição feroz dos republicanos desde o dia 1 e precisou de anos para começar a lidar com essa oposição de forma realista. Depois, ficou perigosamente perto de pôr a América em perigo, na sua tentativa de conseguir uma «Grand Bargain» (grande acordo). (...) Mas sejamos justos: Obama enfrenta «lixo» vindo da esquerda, do centro e da direita, literalmente, e não o merece. Apesar de tanta oposição, de tantos bloqueios, tem-se mostrado um dos mais consequentes e, sim, um dos mais bem-sucedidos presidentes da história».

Em entrevista dada a seguir à ABC, a desenvolver as ideias desse artigo, o antigo Prémio Nobel da Economia enquadrou: «As pessoas que achavam que Obama ia conseguir a transformar a América estavam a ser ingénuas. Mas, vejamos, temos a Reforma da Saúde, temos uma significativa reforma financeira. Temos a ação ambiental... Não é tudo o que desejaríamos, mas é mais do que qualquer coisas que tenhamos tido em décadas».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»