«Uma criança que nasça numa família nos 20% com menos rendimentos tem menos de uma hipótese em 20 de chegar ao topo da escala social. Acredito que este é o desafio definidor dos nosso tempos: garantir que a economia funciona para cada trabalhador americano»

«Não há provas sólidas de que o salário mínimo mais alto reduza o número de empregos e há investigação a provar que aumenta o rendimento dos trabalhadores mais pobres e melhora o crescimento económico a curto prazo»

BARACK OBAMA, Presidente dos EUA

Nem tudo têm sido impasses e adiamentos nos anos Obama.

No arranque do seu segundo mandato, em janeiro passado, o 44.º Presidente do EUA prometeu olhar mais para o combate às desigualdades sociais e assumiu compromisso de tentar subir o salário mínimo.

Não se trata promessa vã: tem a ver com a visão do mundo do atual inquilino da Casa Branca: «Há um défice de oportunidades que está a crescer e essa é uma ameaça maior para o nosso futuro do que o nosso défice orçamental», avisou Obama, em discurso recente sobre o tema.

Esta dualidade (desiguldade de oportunidades/défice orçamental) ajuda a marcar diferenças na luta ideológica da política americana.

Na Casa Branca, continua a estar um Presidente com uma visão inclusiva da sociedade, a acreditar profundamente nas virtudes de um estado que corrija assimetrias e compense os riscos de um liberalismo selvagem. «Uma criança que nasça numa família nos 20% com menos rendimentos tem menos de uma hipótese em 20 de chegar ao topo da escala social. Acredito que este é o desafio definidor dos nosso tempos: garantir que a economia funciona para cada trabalhador americano».

A questão do aumento do salário mínimo, que a Casa Branca tem defendido junto de um Congresso renitente pelo peso da visão republicana, não podia ser mais atual, se olharmos para o tipo de discussão ideológica que vigora neste momento na Europa. «Todos conhecemos os argumentos usados contra a subida do salário mínimo. Dizem que prejudica quem ganha menos, que as empresas contratam menos trabalhadores», expôs Obama, para depois assumir claramente a sua visão do problema: «Não há provas sólidas de que o salário mínimo mais alto reduza o número de empregos e há investigação a provar que aumenta o rendimento dos trabalhadores mais pobres e melhora o crescimento económico a curto prazo».

Esta posição reforça a ideia de que o argumento económico poderá ser o maior trunfo do conturbado segundo mandato de Obama, tão marcado pelo impasse político no Congresso, neste primeiro ano.

Os sinais positivos estão aí: taxa de desemprego no ponto mais dos últimos cinco anos (7%), com a criação de 203 mil postos de trabalho fora do setor agrícola em novembro.

Valores que começam a apontar para níveis anteriores à tempestade financeira de 2008 e que constroem a ideia de que Obama poderá ter como principal legado, no final do seu segundo mandato, devolver a América a a um patamar de estabilidade económica, que lhe permita manter «uma condição liderante neste mundo multipolar».

As celebrações fúnebres de Nelson Mandela, mesmo com os fait-divers do tradutor de linguagem gestual fraudulento e o «selfie» da PM dinamarquesa com Obama e Cameron, reforçaram essa noção de uma América ainda indispensável.

O Presidente americano ditou os dois momentos mais relevantes de um dos eventos que vão marcar o ano político: com o cumprimento histórico a Raul Castro e com as palavras sobre o legado de Mandela: «Ensinou-nos o poder de agir, mas também das ideias; a importância da razão e dos argumentos; a necessidade de estudar não apenas aqueles com quem concordamos, mas também os outros. Ele mostrou que as ideias não podem ser travadas pelas paredes das prisões».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»