Com a crise síria num impasse diplomático, Obama ganhou algumas semanas para voltar a olhar para a frente interna.

E a verdade é que, nesse ponto, Washington continua a mostrar o «business as usual».

Até ao final do mês, o relógio está a contar no Capitólio. Há uma nova bomba que a Administração Obama vai ter que desativar, antes que se atinja o «deadline».

Os acordos de última hora feitos no verão de 2011 e no primeiro dia de 2013 adiaram a queda da «fiscal cliff», mas o perigo de «sequestro» do sistema de apoios sociais e incentivos fiscais continua.

A próxima semana será de especial tensão em Washington. Há um novo acordo a fazer entre Barack Obama e John Bohner, o «speaker» da House de maioria republicana.

As duas urgências são evitar o «government shutdown» (que não é apenas um fantasma artificial, aconteceu mesmo durante os anos Clinton, com semanas sem serviços em Washington e pagamentos congelados a funcionários governamentais) e obter um acordo de fundo para a aprovação do Orçamento de 2014.

Nas últimas semanas, perante a iminência de um ataque à Síria, o Partido Republicano até mostrou poder concordar com o Presidente em matérias de relevo na política externa.

Mas quanto às divergências de fundo na frente interna, elas continuam. E «No Drama Obama» dá sinais de começar a perder a paciência: «Nunca se tinha visto na história dos EUA o teto da dívida ou a ameaça de não subir esse teto usados como para extorquir o Presidente ou um partido e tentar forçar temas que não têm nada a ver com o orçamento e nada a ver com a dívida. Então, é aqui que estamos (esta é a linha mais funda e quero que todos aqui percebam o que está em causa). Apresentei um orçamento que lida e continua a lidar com a dívida e o défice de forma efetiva. E estou preparado para trabalhar com democratas e republicanos para olhar para algumas prioridades que os republicanos entendem ser importantes, mas também para aquelas que nós consideramos serem importantes. Fi-lo no passado e vou continuar a fazê-lo».

Esta argumentação de Obama podia ter sido tirada da crise do verão de 2011 ou dos últimos dias de 2012. Mas foi usada à mesa das negociações para o Orçamento, perante os líderes republicanos, no passado dia 18.

Um dos «hot points» em causa é a implementação do ObamaCare. Três anos e meio depois da aprovação no Congresso e dois anos depois da confirmação da sua legalidade pelo Supremo Tribunal, e mesmo depois da relegitimação política de Obama nas eleições de novembro de 2012, os republicanos ainda não desistiram da ideia de o revogar.



A congressista Debbie Wasserman Shultz, da Florida, uma das «pitbulls» de Obama no Congresso, insiste: «Quando as pessoas receberem os benefícios do ObamaCare, não vão querer que esta reforma volte atrás e não vão abdicar dela».

Paul Krugman foi mais longe e intitulou o Partido Republicano de «crazy party», em artigo no New York Times: «No início deste ano, Bobby Jindal, o governador republicano da Luisiana, pediu aos companheiros do seu partido para que deixassem de ser o «partido estúpido». Infelizmente, o sr. Jindal falhou na necessidade de apresentar propostas construtivas sobre como poderiam fazer isso. E disse, ele próprio, coisas que não se mostraram especialmente inteligentes. No entanto, os seus companheiros de partido seguiram o conselho de Jindal e o Partido Republicano deixou de ser o «partido estúpido», passando a ser o «partido louco».

Nesse artigo no NYT, Krugman expõe a urgência de um regresso à moderação dos republicanos na sua relação com o Presidente e lembrou a forma construtiva como, nos anos 80, Tip O¿Neill (o líder democrata do congresso durante os anos Reagan) lidou com o presidente republicano.



Mas isso foi há 30 anos. Desde aí, a disfuncionalidade da dinâmica política de Washington foi agravada.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»