O início de novembro corresponde, em anos pares, a eleições nacionais nos EUA: de quatro em quatro anos, elege-se o Presidente; de dois em dois anos, há eleições para o Congresso (um terço do Senado muda, na sequência de seis anos, e é eleita a Câmara dos Representantes).

Esta semana ficará marcada por algumas marcas temporais que nos ajudam a situar o ciclo político que se avizinha na América.

Hoje assinalam-se cinco anos da eleição da primeira eleição presidencial de Barack Obama (4 de novembro 2008). Depois de amanhã, quarta-feira, completa-se o primeiro aniversário da reeleição do primeiro presidente negro da história americana.

No passado sábado, 2 de novembro, passaram três anos das eleições intercalares que ditaram a maior vitória eleitoral para o Congresso do Partido Republicano, com um forte contributo dos 90 membros afetos ao Tea Party eleitos para a Câmara dos Representantes e pouco mais de uma dezena de senadores.

Daqui a exatamente um ano, quando das «midterms» de novembro, por esta altura saberemos que tipo de relação de forças existirá na reta final do segundo mandato presidencial de Obama: será que o Presidente terminará como começou, com uma grande maioria democrata a apoiá-lo nas duas câmaras; ou ficará mesmo condenado a ser um «lame duck» (pato coxo), com a autoridade presidencial barrada constantemente por um Congresso que lhe é politicamente hostil?

Outubro foi pródigo em provar como as respostas a estas perguntas serão importantes.

Aqueles 16 dias de paralisação governamental deixaram mossa política e económica. No plano político, traçaram uma pista de «última linha vermelha» em relação aos limites que o jogo político deve ter num país civilizado. Tendo em conta que estamos a falar dos EUA, ainda o país mais poderoso do Mundo, essa exigência deveria ser ainda maior.

Por outro lado, não devem ser descurados os efeitos económicos do que aconteceu. Estudo recente aponta para um prejuízo na ordem dos 24 mil milhões de dólares para a economia americana (cerca de 0,6% do PIB americano).

Ora, isso daria, por exemplo, para pagar cerca de dois anos do programa federal de apoio alimentar nas escolas.

O efeito do «shutdown» está ainda por medir verdadeiramente. Nas últimas semanas, vários setores da sociedade americana deram conta dum aumento de desconforto e até aversão em relação às «táticas de Washington», que Barack Obama tanto criticou, enquanto candidato presidencial, há precisamente cinco anos.

Em política, é sempre arriscado apontar «ultimatos» ou «mudanças definitivas». Mas a crise da primeira quinzena de outubro passou um determinado limite, ainda por avaliar.

A recente perda de estatuto de Barack Obama, no «ranking» da Forbes, não deve ser menosprezada.

Desde que é Presidente dos EUA, Obama surgiu sempre em primeiro lugar na lista dos «mais poderosos do Mundo», com exceção de 2010 (precisamente o ano em que perdeu a maioria democrata no Congresso).

Nos critérios para colocar Vladimir Putin no primeiro posto, a Forbes apontou a gestão da crise síria (com o presidente russo a ter intervenção decisiva no evitar, à ultima hora, de uma ação militar americana sobre Damasco), interpretando um enfraquecimento do poder americano no Mundo.

As ondas de choque do «government shutdown» foram outro motivo apontado para este «downgrade» de poder de Obama.

Barack foi reeleito só há um ano e os sinais de alarme estão lançados: o final do segundo mandato só poderá ter uma maior capacidade de concretização legislativa se aparecer um novo fôlego que sacuda o clima da permanente impasse em Washington.

No plano externo, as tensões geradas pelo «caso Snowden» atingiram um ponto que muito dificilmente será sanado. As declarações recentes de John Kerry foram claras: a Administração Obama sabe que se foi longe demais.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca