«Aqui estão os resultados dos nosso esforços: o mais baixo desemprego dos últimos cinco anos. O mercado imobiliário a regressar em força. O setor industrial a somar novos empregos, pela primeira vez desde os anos 90. Produzimos mais petróleo do que aquele compramos ao resto do Mundo. É a primeira vez que isso acontece em cerca de 20 anos. O nosso défice foi cortado a metade. E pela primeira vez numa década, os líderes empresariais um pouco por todo o Mundo declararam que a China já não é o melhor sítio para investir: é a América»

BARACK OBAMA, Presidente dos EUA, discurso do Estado da União, 28 de janeiro 2014





O recente discurso de Obama no Estado da União não serviu apenas para sublinhar a ideia forte de que «2014 será um ano de ação» para a sua Presidência.

Entre os avisos aos congressistas republicanos e o piscar de olho aos liberais com o aumento do salário mínimo dos funcionários públicos, o Presidente associou a recuperação económica obtida nos últimos quatro anos com o que considera ser o regresso da América à condição de motor da economia mundial.

«Acredito que este pode ser um ano de confirmação para a América. Depois de cinco anos de sacrifícios e determinação, os Estados Unidos são na melhor posição para enfrentar o século XXI, quando comparados com qualquer outro país», exortou.

Entre o final dos anos Bush e o início da era Obama, habituámo-nos a ler e ouvir sobre o «declínio do poder americano».

O fracasso das operações no Iraque e no Afeganistão, e sobretudo o rebentar da crise financeiro com epicentro no sistema financeiro americano, deram corpo à ideia.

Mais recentemente, episódios como a crise síria resolvida por Putin ou o shutdown em Washington que paralisou o governo americano por duas semanas, alimentaram a noção de que a presidência Obama enfraqueceu a liderança americana no Mundo.

O Presidente tem tentado combater essa ideia e a maior vitória que tinha conseguido até agora tinha sido a sua reeleição, em novembro de 2012.

Mais de um ano depois, este discurso sobre o Estado da União (considerado pelo conservador Newt Gingrich como «um dos melhores da sua presidência») ajudou a sublinhar um caminho que o Presidente pretende trilhar até ao final do segundo mandato: a América está «a recuperar», o pior «já passou», os indicadores económicos começam a ter valores «anteriores ao início da crise».

É preciso, agora, tornar real, «para as pessoas», a melhoria económica que os indicadores já mostram (daí a aposta no aumento do salário mínimo, trunfo que o Presidente só pôde jogar junto do funcionalismo público, mas que apelou para as empresas privadas repliquem).

Obama sabe perfeitamente que a base dos seus problemas de execução governativa se mantém: a maioria republicana na Câmara dos Representantes vai certamente manter tom do bloqueio e, com o aproximar das intercalares de 2014, fará tudo para não oferecer ao Presidente e aos democratas trunfos eleitorais para novembro.

Mas à «vontade de reconciliação» que dominou a sua retórica do primeiro mandato, Obama sucedeu um pragmatismo que aponta para a disposição de «assinar ordens executivas», sem ter que passar no crivo do Congresso.

É questionável se o Presidente tem mais a ganhar do que a perder com esse caminho. A tradição legislativa do sistema político em Washington tem no Congresso o seu pilar essencial. E só em situações excecionais vê com bons olhos que o Presidente use os seus poderes passando por cima do Capitólio.

Como candidato presidencial, em 2007 e 2008, Barack Obama foi muito crítico de medidas idênticas na parte final da presidência George W. Bush.

Mas é também verdade que uma boa parte da agenda com que Obama obteve a reeleição continua bloqueada pelo «gridlock» político de Washington. A reforma da Imigração será uma prioridade dos próximos meses e caso não tenha novidades concretas no Congresso, pode vir a ter um empurrão decisivo diretamente da Casa Branca.