O quinto ano da era Obama (primeiro do segundo mandato) tem sido apontado, pela «sabedoria convencional», como um dos piores desde que o 44.º Presidente dos EUA assumiu funções na Casa Branca.

Até os membros do «staff» do Presidente têm assumido em público a ideia de que 2013 foi «uma desilusão» para a agenda política de Barack Obama.

Quanto aos analistas, a tese dominante é a de que o impasse em Washington fez diminuir a influência do Presidente: «O ano infernal de Obama», decretou o «New Republic». «Pouco parece ser positivo no balanço de 2013 para Obama», refere Elizabeth Ralph, em análise no «Politico».

Nessa peça, a articulista até coloca 2013 como um dos piores «quintos anos» de presidentes com dois mandatos, a par de Nixon, Reagan, Franklin Roosevelt e James Madison.

Ainda mais concludente foi a análise do Washington Post: «Obama teve o seu pior ano como Presidente», uma sentença decorrente da tese de que «perdeu espaço para construir o seu legado». O WP vai mais longe e aponta: «Os historiadores vão recordar 2013 como o ano perdido para Barack Obama. Começou com uma grande promessa e termina com um grande desapontamento».

A que se deve tamanha diferença de expetativa entre o início e o fim?

Houve, sem dúvida, um esvaziar de créditos políticos, que Obama havia ganho no final de 2012, com uma reeleição mais clara do que era previsível e que redundou na eleição de Personalidade do Ano para a Time.

Tudo foi diferente, para piorar, na gestão política do Presidente em 2013. A tal «grande promessa» apontada no início do ano teve definições claras na tomada de posse (21 de janeiro) e no State of the Union (12 de fevereiro).

Mesmo sem uma «Grand Bargain», o fantasma da «Fiscal Cliff» parecia adiado e a bola estava do lado do Presidente, depois da relegitimação eleitoral.

Mas Washington voltou a mostrar à evidência que não tem um sistema funcional. A dupla crise de outubro («shutdown»/teto da dívida) agravou a ideia de enfraquecimento da Casa Branca como vértice fundamental do sistema político americano.

Sem ser capaz de jogar o ás de trunfo, Obama foi acusando limitações na concretização da sua agenda: o «gun control» ainda não foi aprovado; a «Energy Bill» e uma Reforma Financeira mais sólida foram de novo adiadas.

A recente aposta em John Podesta para o núcleo duro da Casa Branca terá sido a prova final de que o Presidente não consegue resolver o duelo com os republicanos do Congresso.

Noutros planos, os estilhaços das revelações de Edward Snowden e da investigação sobre o «caso Bengasi» afetaram a imagem externa da Casa Branca e perturbaram os esforços de Obama em deixar um legado de «reconciliação» da América com o Mundo, um dos trunfos que prometia oferecer como sucessor de George W. Bush.

Correu tudo mal? Não.

A recuperação económica tem provas sólidas (desemprego mais baixo dos últimos cinco anos; produção industrial a níveis anteriores da crise de 2007/2008; exportação energética a disparar) e a proposta bipartidária para um «budget deal» pode anunciar um 2014 menos conturbado na execução do governo.

Barack Obama acabou 2012 em grande e vai terminar 2013 com a sensação de um ano perdido. Tem ainda três anos (só abandona a Casa Branca em janeiro de 2017) para «construir um legado».

Walter Shapiro, no «American Prospect», vê 2014 como «a última oportunidade para Obama». «Na verdade, ele deve escolher uma via não tradicional. Deve reforçar a tese de ser o Presidente que ultrapassou a crise e deve assumir que não voltará a governar com uma maioria no Congresso. O que Obama tem que fazer é trabalhar com os republicanos moderados que estejam focados na criação de emprego».

Na América, nada é garantido. Mas também nada é impossível.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»