«Nenhum homem que tenha ocupado o lugar de Presidente dará os parabéns a um amigo que o tenha alcançado»

John Adams, segundo Presidente dos EUA (mandato 1797-1801)

A dupla crise que paralisou Washington por quase três semanas pôs à tona deficiências do sistema político da capital americana.

Barack Obama, horas depois do acordo bipartidário ter sido aprovado com larga maioria, abdicou de reclamar vitória e repetiu várias vezes: «Perdemos todos com isto. Isto não pode repetir-se».

Mas uma coisa são intenções políticas do Presidente, outra, bem diferente, tem sido a prática quotidiana no Capitólio.

John Adams, segundo Presidente da história americana, já tinha identificado o problema: o Presidente dos EUA, tido como o cargo político mais influente do Mundo, tem espartilhos internos.

E o paradoxo é este: em teoria, como bem notaram os Pais Fundadores, isso é bom, porque defende o sistema de eventuais ditadores e limita um poder que poderia ser excessivo. Na prática diária, as limitações são óbvias e estão a marcar os anos Obama de forma que parece ser já irreversível.

A Presidência Obama, a caminhar para o sexto de um total de oito anos, já teve várias sentenças de condenação.

Parecia acabada quando, nos primeiros meses, os «bailouts» e o Recovery Act para salvar os sistema financeiro e relançar a Economia tardavam em passar num Congresso na altura ainda muito democrata; parecia comprometida com os sucessivos adiamentos da Reforma da Saúde; parecia condenada, perante as cedência da Casa Branca na negociação de última hora com o House republicana, para aumentar o teto da dívida, no verão de 2011; parecia rotulada de «um só mandato» quando Romney ultrapassava Obama nas sondagens nacionais, depois do primeiro debate da campanha 2012.

A todos estes momentos, Obama respondeu com triunfos que negaram as condenações antecipadas que havia recebido.

É certo que com vitórias de diferentes dimensões: mas em todos os momentos de crise iminente, o Presidente saiu vitorioso e reforçado: o ObamaCare foi aprovado, confirmado, autorizado judicialmente e relegitimado nas urnas e agora no Congresso; o plano de recuperação económica foi aprovado e a sua implementação ajudou à retoma demorada, mas consistente, dos últimos cinco anos nos EUA; e Obama bateu Romney nas urnas há quase um ano, com um triunfo com uma margem que surpreendeu até alguns dos seus principais apoiantes.

A derrota a toda a linha dos republicanos nas eleições de há um ano parecia ter lançado a discussão interna sobre a necessidade de regressar a um certo discurso tradicionalista, que a direita foi perdendo nos últimos anos, perante o avanço do Tea Party.

«Se queremos que as pessoas gostem de nós, temos que primeiro ser nós a gostar delas», avisou Bobby Jindal, governador republicano da Luisiana.

Mas nem a necessidade iminente de recuperar o contato com as minorias conseguiu recentrar o GOP. O comportamento de uma boa parte da bancada republicana durante este dupla crise foi a prova maior de que a moderação continua a perder.

Há quem chame por figuras do conservadorismo clássico, como Jeb Bush, Rudy Giuliani ou Chris Christie («talvez o último moderado com voz forte no atual Partido Republicano», chamou-lhe dá dias Dan Balz, no Washington Post).

O relógio está a contar: falta um ano para as eleições intercalares e a «guerra civil» do Partido Republicano pode anunciar fortes mudanças.

No Senado, tudo aponta para um reforço da já existente maioria democrata. Na Câmara dos Representantes, a atual maioria republicana é tão vasta que será difícil antever uma recuperação do controlo democrata.

Atendendo aos precedentes dos últimos anos, a última esperança para um final de mandato com todos os trunfos do lado do Presidente seria um ressurgimento democrata na House.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca