O «plano Obama» para travar o Estado Islâmico foi anunciado em «ambiente de 11 de Setembro», 13 anos depois do ataque às Torres Gémeas, mas implicará estratégia completamente diferente da que levou George W. Bush a declarar o ataque ao «Eixo do Mal» que apontava Iraque, Irão e Coreia do Norte.

Os EUA têm que voltar a liderar um «combate ao terrorismo» na região do Médio Oriente porque falharam redondamente as campanhas do Afeganistão e no Iraque.

O plano de Obama, que o Presidente garantiu não ser «uma nova guerra», mas antes uma «campanha de contra-terrorismo», que não implicará «boots on the ground» e será operação longa e complexa.

Por muito que o Presidente dos EUA reforce a ideia que «será diferente das guerra do Iraque e do Afeganistão», este não deixa de ser o plano que Obama não queria traçar.

Prémio Nobel da Paz nove meses depois ser eleito pela primeira vez, Obama tentou sempre demarcar-se do rótulo de «presidente de guerra», de que o seu sucessor tanto gostava.

Usou até ao limite os trunfos das retiradas e da tese da «contenção», numa visão quase «declinista» do que deve ser poder americano, mas, uma vez mais, viu a força dos acontecimentos sobrepor-se à sua condição genética como líder de uma grande potência que pretendia deixar legado «realista».

Contraditório? Talvez nem tanto. Basta reler as reflexões que deixou sobre essa dualidade «guerra vs paz», que marca todos os titulares da Casa Branca, e tem influenciado especialmente os seus dois mandatos, naquele que foi talvez o seu discurso mais brilhante e profundo: a aceitação do Nobel, a 10 de dezembro de 2009, em Oslo.

A poucos meses de completar a retirada das tropas do Afeganistão, e já depois da saída total do Iraque, os EUA são forçados a «regressar» a lógica que vai contra a rota que terá garantido duas eleições presidenciais a Obama.

Mudança de estratégia, em todo o caso. Mas com óbvias diferenças que podem mesmo fazer toda a diferença.

Em primeiro lugar, no apoio da opinião pública americana. Sete em cada vez americanos sentia-se inseguro perante possível ataque do Estado Islâmico a solo dos EUA. Se até há poucos meses não existiria qualquer condição política para esta operação, ela passou a ser a ideia dominante.

Depois, pelas razões que levaram à decisão. Se as «armas de destruição maciça» se mostraram argumento mentiroso para W. Bush depor Saddam, o horror das atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico confere um valor moral e civilizacional ao plano apresentado por Obama.

Os EUA, que nos anos Obama foram sofrendo críticas crescentes de perda de poder e influência na cena mundial, têm uma oportunidade decisiva de provarem que continuam a ser o «ás de trunfo» quando chega a hora da verdade.

Para Obama, era «make or break». Contestado a nível interno, com popularidade fraca, o Presidente viu-se na necessidade de tomar as rédeas. O sucesso ou insucesso da operação que agora começa poderá determinar a sentença final do seu segundo mandato presidencial.

A questão é: será que o «plano Obama» para travar o Estado Islâmico não se prolongará para um período de tempo que já vai abranger a próxima presidência?

Tendo em conta as primeiras análises do completo militar norte-americano, é uma hipótese que tem que ser considerada.

A definição de Obama de que esta «não é uma guerra religiosa, mas uma guerra contra os terroristas» tem facilitado a construção da tal «grande coligação internacional».

Nas horas que se sucederam à comunicação do Presidente, o secretário de Estado, John Kerry somou apoios em dez países árabes, pelo que a «campanha de contra-terrorismo» terá já perto de meia centena aliados.

O alargamento dos ataques aéreos a zonas controladas pelo Estado Islâmico na Síria é o ponto mais crítico. O regime de Assad, beneficiário indireto da «destruição do Estado Islâmico», já avisou que isso seria «violação inaceitável» do espaço de soberania sírio, visão que Moscovo partilhará.