A uma semana e um dia das eleições intercalares, as atenções mediáticas dos americanos começam só agora a estar mais focadas nessa votação.

E escrevo «só agora» porque era suposto que umas eleições na América despertassem atenções mais precoces.

Mas, nos últimos meses, os «hot topics» nos Estados Unidos foram, sem dúvida, «ISIS» (Estado Islâmico, na versão portuguesa), «Ferguson», «Border Crisis» ou «Ebola Outbreak».

A derrota da política? Não exatamente.

Mas que existe uma espécie de cansaço do eleitorado para com um sistema bipartidário que, durante uma boa parte dos mandatos, simplesmente, não funciona, isso parece claro.

Menos «sexy» para os media do que um duelo presidencial, umas eleições para o Congresso têm, no entanto, efeitos de barómetro político muito significativos.

Se, em muitos estados, os candidatos democratas a lugares na House e no Senado temem contágio negativo da falta de popularidade do Presidente, a verdade é que Barack Obama mostra confiança nas possibilidade de um resultado dos democratas acima do que as expetativas, nos últimos meses, têm mostrado, embora saiba que as premissas são, à partida, desfavoráveis.

E o Presidente até parece perceber essa atitude de... reserva por parte de muitos democratas: «A questão central é esta: temos um mapa político complicado. Muitos dos estados que estão em disputa são estados que eu não ganhei na eleição presidencial. E, por isso, para muitos candidatos democratas é complicado ter-me em campanha, porque os republicanos desses estados vão tentar usar isso para mobilizar os mais fanáticos republicanos desses estados», apontou Obama, em entrevista à MSNBC.

Para o Presidente, «o mais importante é que os democratas que se estão a candidatar são tipos que me apoiam, que têm votado comigo nestes anos, que me dão suporte no Congresso. Eles estão no lado certo em questões como o salário mínimo. Estão no lado cedo na questão do «fair pay» (nota: que garante salário igual para trabalho igual para homens e mulheres). Estão no lado certo no apoio a programas de construção de infra-estruturas. Estão no lado certo no apoio a programas à educação. Têm sido meus apoiantes e o que lhes digo é que eles devem o que é preciso para serem eleitos. Eu farei a minha parte, tentando que os nossos apoiantes vão votar».

A.B. Stoddard, editor associado do «The Hill», pergunta, em jeito de comentário provocador: «E se os democratas, afinal, ganharem?»

Há, certamente, um lado retórico na pergunta. Tem, como quase tudo em política, muito a ver com gestão de expetativas: «Digamos¿ e se os democratas sobreviverem ao dia da eleição? Parece que até o senador Ted Cruz tem dúvidas sobre isso: «Está equilibrado o suficiente para cair para qualquer lado», disse o senador republicano do Texas, em entrevista ao Bloomberg, na quarta à noite. As sondagens não o indicam, a disposição dos eleitores não o faz prever e os democratas no Senado já começam a deitar para a Casa Branca as culpas duma eventual perda do controlo da câmara alta do Congresso. Mas, mesmo assim, pode acontecer.»

Para Stoddard, «se a Grande Surpresa ocorrer, os democratas conseguirão ter sucesso na tentativa de bloquear o controlo republicano no Senado numa série de três ciclos eleitorais seguidos, o que será espantoso. Terríveis candidatos escolhidos pelo Tea Party reduziram as possibilidades dos republicanos nas eleições de 2010 e 2012 em estados como Nevada, Delaware, Indiana, Colorado ou Missouri. Mas neste ano, não são os republicanos que estão afetados pelos seus candidatos, mas sim os democratas (presidente impopular, candidatos fracos com pouco financiamento), pelo que se nem sem assim os republicanos ganharem estas corridas, isso será um golpe difícil de sarar».

O que significará mesmo «ganhar» ou «perder» a 4 de novembro?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»