«Ganhar uma guerra é tão desastroso quanto perdê-la»

Agatha Christie

«É tempo dos governadores republicanos recuperarem a mensagem conservadora em DC. O verdadeiro Partido Republicano não se tem feito ouvir em Washington»

Bobby Jindal, governador republicano da Luisiana

Nenhum sistema político é perfeito mas, como sabiamente nos ensinou Churchill, «a democracia é o pior de todos os sistemas com exceção de todos os outros».

O «sequestro» que se vive, há mais de uma semana, em Washington, mostra isso de forma trágica.

Que haja diferenças ideológicas entre democratas e republicanos, isso é compreensível. Num clima de normalidade, até seria desejável.

O problema é que o jogo político no Capitólio, nas duas câmaras, mas sobretudo na House of Representatives, deixou de ter uma formulação lógica.

A política, que com mais ou menos expedientes criticáveis terá sempre que ser um jogo de cedências, ficou, na América, refém de dogmas ideológicos da direita radical.

Na verdade, a oposição ao «ObamaCare» deixou de ser o ponto.

A questão é mais funda e complexa: tem a ver com uma sobreposição perversa de artificialismos usados por quem tem a maioria na Câmara dos Representantes para travar uma agenda que o Presidente viu legitimada a 6 de novembro de 2012.

Eugene Robinson, no «Washington Post», sublinha a perplexidade: «Enquanto os republicanos insistem na sua cegueira patética, o ObamaCare é um facto. Não há caminho para trás. O ponto de não retorno foi alcançado quando milhões de americanos «crasharam» os sites do Affordable Care Act tentando comprar seguros de saúde. Os republicanos podem tentar continuar esta batalha, mas já perderam a guerra. A Reforma da Saúde é lei».

John Boehner, o ambíguo «speaker» da Câmara dos Representantes, assumira o mesmo, dias depois da reeleição de Obama: «O povo americano falou e os resultados são claros. O ObamaCare está aprovado e é para implementar», referiu, na altura, o congressista republicano do Ohio.

Ainda ninguém sabe muito bem como e quando vai acabar esta crise. Mas o que já parece certo é que ela criará divisões ainda mais fundas no Partido Republicano.

Agatha Christie avisou que «ganhar uma guerra é tão desastroso quanto perdê-la». Numa primeira impressão, poderia parecer que os republicanos estariam a ganhar esta batalha tão feroz em DC.

Afinal de contas, conseguiram, com a maioria numa só câmara, paralisar um sistema que, há 11 meses, havia voltado a eleger Barack Obama, odiado pela fação mais radical da direita americana.

Sucede que uma crise com esta dimensão deixará estilhaços. E criará consequências no coração do partido de Lincoln, Teddy Roosevelt, Nixon e Reagan.

Nos últimos anos, o lado pragmático dos republicanos foi sendo demasiado tolerante para com o Tea Party, temendo os avanços eleitorais que esse movimento extremista (e com uma génese não política) teve nas intercalares de 2010.

Só que, a um ano das eleições para o Congresso, muitos republicanos mais moderados estão assustados com as consequências deste «sequestro».

O caso não é para menos: por cada dia que passa, este congelamento parcial custa perdas significativas para as economias estaduais e inquietações em milhões de americanos.

É verdade que o líder republicano na Câmara dos Representantes tem feito um esforço para passar legislação que, pelo menos, garanta que os funcionários públicos que foram mandados para casa venham a receber os dias que estão a ser obrigados pelo próprio governo federal a não trabalhar.

Mas quando se fizer o balanço deste «sequestro», há congressistas republicanos que vão ter muitas dificuldades em prestar contas aos seus eleitores.

A América pode ter muitos defeitos. Mas quando toca a apurar responsabilidades, continua a ser um exemplo.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca