A um ano e sete meses de arrancar oficialmente a época de primárias nos EUA (na prática, ela já está em movimento), a evolução das sondagens mostra duas coisas: do lado democrata, Hillary exibe vantagem politicamente impossível de reverter; no campo republicano, não há «frontrunner» declarado e a corrida está aberta a um leque vasto e variado de pretendentes.

Nisto de falar de possíveis nomeados presidenciais a tanto tempo de distância, há quase sempre a tentação de se apontar favoritos.

E seria difícil encontrar um quadro mais discrepante entre os dois campos partidários. Hillary só não será a nomeada democrata se não quiser. Em grande contraste, não dá para indicar quem está, nesta altura, em melhor posição no lado republicano.

Muito decorrerá do caminho que a direita americana percorreu nos últimos anos.

A forma de encarar o «fenómeno Obama» mudou o conservadorismo americano. E deixou a corrida à nomeação presidencial republicana para 2016 num autêntico labirinto.

O eixo da direita política nos EUA afastou-se do centro nos últimos seis anos. Basta dizer que, na corrida de 2007/2008, Mitt Romney ocupava o segmento «à direita» as primárias republicanas que viriam a ser ganhas por John McCain.

Quatro anos depois, em 2011/2012, Mitt Romney representou a solução mais moderada de um lote de candidatos um bocadinho assustador, que continha o ultraconservador religioso Rick Santorum, o «cowboy» texano Rick Perry, ou a «tea party darling» Michele Bachmann.

A derrota a toda a linha de Romney para Obama, em novembro de 2012, fez levantar várias inquietações nas diferentes correntes republicanas: faria sentido continuar a permitir que uma linha tão radical dominasse o discurso do Partido Republicano?

A forma como o próprio Romney foi levado a descolar o seu discurso para a direita, de modo a conseguir agarrar a nomeação de 2012, não teria sido contraproducente para as aspirações dos republicanos de evitar a reeleição de Obama?

Passou um ano e meio desde esse momento. E, por estranho que isso parecer, não houve ainda sinais claros de que uma via moderada passe a prevalecer na escolha republicana de 2016.

Sobram nomes e pretendentes, mas falta ainda uma definição clara do caminho que o Partido Republicano vai pretende seguir, na tentativa de recuperar o controlo da Casa Branca, que em 2008 perdeu para o Partido Democrata.

Poderão os oito anos de Obama ser prolongados por mais quatro ou mesmo oito de Hillary Clinton?

As sondagens mostram que esse é o cenário mais provável (Hillary bate com relativa facilidade qualquer contendor republicano), mas convém lembrar que estamos ainda muito distantes no calendário da fase que irá decidir verdadeiramente a sucessão de Obama.

E é preciso, sobretudo, recordar que os sucessos eleitorais de Barack Obama em 2008 e 2012 terminaram com uma tendência, que parecia consistente, de vantagem republicana nas eleições presidenciais (no meio século que mediou Kennedy de Obama, só três democratas conseguiram chegar à Casa Branca: Johnson, Carter e Clinton).

O opositor de Hillary Clinton será um dado crucial para percebermos a dinâmica da corrida presidencial de 2016.

Em traços gerais, parece claro que qualquer escolha mais radical do campo republicano (Sarah Palin, Michelle Bachmann, Rick Perry, Rick Santorum, Ted Cruz, Rand Paul) significará um passeio para Hillary na eleição geral.

Se em 2012 a base republicana soube escolher com a razão e não com o coração (Romney não era o mais mobilizador, mas era de longe quem mais hipóteses tinha de evitar o triunfo de Obama), essa necessidade reforça-se para 2016.

Espaço para Jeb Bush, Paul Ryan ou mesmo Marco Rubio? Talvez.

Voltaremos a este tema muito em breve. Uma eleição presidencial americana é mesmo a mais louca corrida do Mundo.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»