O recente discurso sobre o Estado da União confirmou que é nos EUA que o debate ideológico mais se sente.

A política americana continua a ser a principal arena de combate de ideias. No melhor e no pior.

Barack Obama lançou a carta do aumento do salário mínimo para os funcionários públicos americanos e o prolongamento do alcance do subsídio de desemprego, depois de meses de discussão entre democratas e republicanos sobre a necessidade de diminuir as desigualdades sociais numa América com cerca de 40 milhões de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza.

Rapidamente, as «rising stars» da direita pura e dura americana (Marco Rubio, Ted Cruz, Rand Paul) levantaram a voz contra a iniciativa do Presidente. Rand Paul comentou: «Não sou contra a existência de subsídio de desemprego. Mas considero que ele limita a economia e a longo prazo os efeitos são nefastos».

Acusado pela fação liberal de não ter ido suficientemente longe nos temas mais gratos à esquerda americana no primeiro mandato, Barack Obama prometeu, logo no discurso de posse do segundo (21 de janeiro 2013), dar prioridade a bandeiras como os direitos dos homossexuais, o combate às desigualdades ou a reforma da Imigração.

O sistema político americano assenta num pressuposto muito forte: o do bipartidarismo.

Como só democratas e republicanos têm acesso ao jogo do poder real (candidatos a Presidente, governadores de estado, controlo das duas câmaras do Congresso), há uma tendência para que vozes demasiado à esquerda (comunistas, anarquistas, anti-sistema) ou demasiado à direita (libertários, racistas) sejam residuais e não consigam o acesso ao «mainstream».

E a verdade é que, com diferenças fundamentais na visão do Mundo sobre o poder americano, a relação com as minorias ou as políticas fiscais, estes dois grandes pólos (democratas e republicanos) têm mostrado, nas últimas décadas um certo consenso de governação nas linhas principais: redução das assimetrias sociais, incremento

O problema é que, nos últimos anos, esse pressuposto foi abalado, nos últimos anos, com um certo enfraquecimento do núcleo tradicional do Partido Republicano.

O mau exemplo dos anos finais de George W. Bush (com o domínio dos «neocons» e o desastre da campanha do Iraque) e, sobretudo, a eleição presidencial de Barack Obama abriram caminho ao «assalto» da direita radical, que passou a dominar o discurso mediático e mesmo político dos conservadores.

Os efeitos têm sido perturbadores: o sistema político americano, já de si excessivamente ponderado pelos «contrapesos», passou a ser simplesmente disfuncional.

Sem um bom senso de uma relação de rivais políticos como existia por exemplo entre o republicano Reagan (na Casa Branca) e o democrata Tip O'Neill (speaker democrata do Congresso), nos idos de 80, a era Obama tem sido marcada pela paralisação legislativa e os prejuízos não são só para o Presidente e para os democratas.

Muitos republicanos moderados e/ou tradicionais estariam na disposição de negociar com o Presidente este propostas como as que Obama lançou no State of The Union. Em relação à Imigração, então, o constrangimento é evidente: Obama terá conseguido a reeleição pelo largo apoio que teve junto de latinos que quiseram apoiar eleitoralmente essa ideia política do Presidente.

Mas John Boehner, «speaker» republicano da House, já veio dizer, após o State of The Union, que «é muito improvável que o Congresso aprove uma Reforma da Imigração durante o ano 2014».

A luta de classes está lançada no jogo ideológico da política americana. O Presidente tem legitimidade eleitoral e política para fazer valer as suas posições, mas ainda não descobriu maneira de convencer os seus adversários disso.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»