Um dia depois de a Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, ter apontado sinais interessantes de aproximação entre Estados Unidos e Irão (com Rohani a insistir que não pretende ter armas nucleares e Obama a acenar, ainda que com «realismo», a disponibilidade de diálogo com Teerão), eis que o lado mais esquizofrénico da política americana volta a emergir.

A maratona oratória protagonizada pelo senador republicano Ted Cruz, um «presidential hopeful» para 2016, entrará para a história do Capitólio como um dos momentos mais ridículos que a estranha forma que a América tem de fazer política já nos mostrou.

Ted Cruz, um dos mais importantes membros da ala conservadora dos «cubano-americanos», quis assumir-se como um campeão anti-Obamacare.

Fê-lo de um modo inusitado e não deixa de ser curioso que tenha caído num dos erros que a comunidade de ascendência cubana na América mais critique em Fidel Castro: falando de modo quase interminável.

O objetivo era o de criar um «filibuster», um bloqueio que travasse a votação do Obamacare. «Pura perda de tempo», sentenciou Harry Reid, senador que lidera a maioria democrata no Senado.

Aprovado há três anos e meio no Senado e na Câmara dos Representantes (e posteriormente confirmado pelo Supremo), o Obamacare tem-se mantido sob o fogo dos conservadores, que têm feito tudo para adiar e mesmo inviabilizar a implementação da mais importante reforma federal dos últimos 70 anos na América.

Com o apoio de dos senadores Rand Paul e Marco Rubio, outros dois líderes em ascensão no Partido Republicano, Ted Cruz assumiu uma forma bizarra, mas não totalmente original na política americana, de se mostrar contra aquela que terá sido a maior vitória ideológica dos anos Obama.

Este momento «only in America» de Ted Cruz, que para fazer horas até contou uma história de adormecer aos seus filhos, mereceu atenções mediáticas e um enorme «buzz» nas redes sociais.

Mas, tal como notou Harry Reid, teve poucos efeitos práticos.

A lei será mesmo votada e o ato apenas terá ajudado a uma maior clarificação no campo republicano: entre estes resquícios de radicalismo político, inflamados pelo Tea Party, e a visão mais esclarecida de senadores como John McCain (que lembrou que «as eleições e as votações devem ter consequências e, como tal, devemos respeitar a aprovação do ObamaCare), o Partido Republicano continua a mostrar-se profundamente dividido.

Rand Paul, senador do Kentucky e estrela em ascensão da ala radical dos republicanos (ele próprio tinha estado quase 14 horas a falar no Senado, há meses, contra o programa da Administração Obama que permite a utilização de drones), perguntou de forma agressiva: «Porque é que o Presidente não adere ao ObamaCare, se gosta tanto dele? É o seu «bebé». De certeza que seria bem-vindo no mercado que quer criar. Se não adere, sr.Presidente, porque insiste tanto nele?»

Barack Obama, que parecia ter saído algo enfraquecido do impasse na Síria, ganhou, nos últimos dias, em dois tabuleiros: na frente interna, voltou a perceber-se a falta de bom senso de quem se lhe opõe; no plano externo, reforçou na ONU a posição de exigência quanto ao desarmamento químico do regime de Assad e iniciou uma etapa que parece ter pernas para andar, na pacificação da ameaça nuclear iraniana.

Com 17 de outubro a ser fixada como nova data para o atingir do teto da dívida, as próximas semanas voltam a ser de alta tensão política em Washington.

Na política americana, nada é definitivo e tudo se move. Mas há coisas que parecem não ter mesmo conserto.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»