«Não há nenhum desafio mais urgente nem nenhum debate mais importante. Podemos contentar-nos com um país em que um número reduzido de pessoas vive muito bem, enquanto um número cada vez maior de americanos sobrevive com dificuldade. Ou então podemos restaurar uma economia em que toda a gente dá a sua contribuição e toda a gente joga pelas mesmas regras. O que está em causa não são valores democratas ou republicanos, mas valores americanos ¿ e temos de os ressuscitar. Os milhões de americanos que trabalham no duro e cumprem as regras merecem que o Governo e o sistema financeiro façam o mesmo. As regras têm de ser iguais para todos ¿ sem resgates, nem dádivas, nem compromissos. Uma América de futuro tem de exigir responsabilidade a todos»

Barack Obama, discurso do Estado da União 2012

Barack Obama vai endereçar esta terça à noite o seu sexto discurso sobre o Estado da União, o antepenúltimo antes de abandonar a Casa Branca.

Em 2009, o primeiro «State the Union» da era Obama ainda foi feito em clima de euforia de vitória eleitoral. O de 2010, pelo contrário, ocorreu poucos dias depois da perda da supermaioria democrata no Senado e num clima de extrema dificuldade política, perante a iminência da queda da Reforma da Saúde.

A «Affordable Health Care Bill» viria a ser aprovada no Congresso dois meses depois desse discurso, mas esse viria a ser apenas o primeiro de um longo e custoso percurso que, três anos depois, ainda não está concluído.

Em 2011, Obama aproveitou o seu terceiro State of The Union para mostrar ao Congresso que, apenas dois meses depois da brutal derrota que os democratas sofreram nas intercalares, continuava a ter condições para impor uma agenda própria a partir da Casa Branca.

No discurso que ficou conhecido como «Winning the future», apontou a América como «país que continuará a ser fundamental em todas as grandes questões mundiais» e exortou: «Não há nenhuma razão para que os EUA não sejam liderantes na inovação e no conhecimento, apesar dos avanços de países como a Índia ou a China. Este é o momento Sputnik desta geração».

Um ano depois, em 2012, Obama escolheu como motes para o seu quinto State of the Union «Acreditar na América e numa Economia construída para durar».

Já em plena campanha para a reeleição, focou-se na recuperação e aproveitou o momento para sublinhar a criação de empregos já conquistada nessa altura: «Estes são os factos: nos últimos 22 meses, foram criados mais de três milhões de postos de trabalho. As empresas americanas estão a contratar, acrescentando emprego à economia pela primeira vez desde o fim dos anos 90».

No ano passado, meses depois da reeeleição e apenas três semanas após a tomada de posse, Obama lançou, a 12 de fevereiro de 2013, uma ideia inesperada: uma plataforma de livre comércio entre EUA e Europa.

O problema é que, meses depois, os estilhaços do «caso Snowden» levaram a um clima de tensão entre a América e os seus históricos aliados europeus que impediu ou, no mínimo, adiou a concretização dessa ideia.

O Presidente tem dois grandes trunfos a lançar para o seu antepenúltimo State of The Union: os índices de desemprego (que baixa para níveis anteriores à crise de 2007/2009) e o crescimento económico (4,5%, já próximo dos valores pré-crise).

Mas tem vários «cisnes negros» a enfrentar. A experiência de anteriores discursos mostra que nem o momento de aparente consenso do State of The Union serve para curar feridas intensas entre democratas e republicanos.

A agenda da reeleição passou pela reforma da Imigração, pela solução da «Fiscal Cliff» e pela manutenção de apoios sociais promovido pelo governo federal.

Terá Barack Obama condições para lançar uma nova ideia forte na terça à noite?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»