Os últimos dias têm sido intensos na estratégia internacional de Obama.

O Presidente tem estado na berlinda dos «pundits» de Washington por ter aceite a troca de cinco prisioneiros talibans pela libertação do sargento Bowe Bergdahl, que esteve em cativeiro por cinco anos.

Trocar prisioneiros com o inimigo nunca é operação completamente limpa. A ideia de negociar com quem tenta fazer mal à América gera aversão imediata a muitos setores nos EUA e há mesmo correntes democratas que desaprovam a jogada do Presidente.

Obama fez questão de receber, na Casa Branca, os pais do sargento libertado e, numa polémica muito discutível, o aspeto do pai de Bergdahl (a exibir barba que a muitos lembrou um estilo próximo de terroristas inimigos da América) agravou o ambiente político e mediático da questão.

A coisa piorou quando, nos últimos dias, se somaram dúvidas, vindas de indicações que supostamente algunas congressistas republicanos terão, sobre se Bowe Bergdahl não seria, em vez de vítima, um «traidor» à América, por suposta conversão a ideais que ameaçam a segurança e os interesses dos americanos.

Mesmo assim, Obama mantém: «Não peço desculpas por esta decisão e por esta troca», lançou ontem, em conferência de Imprensa conjunta com o primeiro-ministro britânico, David Cameron.

«Nunca me surpreendo por haver polémicas alimentadas nos corredores de Washington, ok? Essa não é a questão essencial», reforçou o Presidente.

O caso promete ter novos desenvolvimentos, à medida que se foram descobrindo pormenores da captura ocorrida em 2009 e que, supostamente, terá documentação ainda não totalmente libertada por parte do Congresso.

A verdade é que há, da parte do Presidente, mais um claro sinal da sua leitura de que o momento é de reduzir o peso de Guantanamo Bay (era lá que os cinco prisioneiros taliban, entregues ao governo do Catar, estavam) e de reforçar a noção de «regresso a casa» por parte dos militares americanos, aliviando a dor das famílias.

No manual da doutrina Obama, este tinha tudo para ser um caso de «win-win», não fossem os últimos desenvolvimentos.

Hillary Clinton, provável nomeada presidencial democrata em 2016, escreveu sobre o tema no livro que irá lançar na próxima semana. A obra recorda memórias de Hillary nos quatro anos na chefia da diplomacia americana e tem um título esclarecedor quanto à dificuldade do cargo: «Hard choices» (escolhas duras).

Maggie Haberman, no Politico.com, antecipa uma das frases escritas pela ex-secretária de Estado, em claro apoio à visão do Presidente e em jeito de críticas para quem o atacou: «Abrir uma porta de negociação com os taliban é sempre um caminho muito difícil de engolir por parte de muitos americanos, depois de tantos anos de guerra».

Enquanto isso, na frente ucraniana, a estratégia de «contenção» da ameaça russa teve dados positivos nos últimos dias.

Obama deixou claro apoio ao processo eleitoral ocorrido a 25 de maio passado em Kiev, e que ditou uma vitória claríssima de Poroshenko, o «rei do chocolate», como novo presidente ucraniano.

A posição da Administração americana, secundada por outras chancelarias na Europa, obriga, no mínimo, a uma desaceleração da ameaça russa sobre Kiev. Pelo menos, para já.

A cimeira do G7, que terminou ontem em Bruxelas, reforçou a noção de isolamento de Putin. Pela primeira vez em muito tempo, a Rússia ficou de fora do clube dos países mais poderosos. E enquanto mantiver a atitude de agressão no Leste europeu, assim continuará a ser.

Obama forçou Hollande a jantar duas vezes na passada quinta-feira, ao recusar sentar-se na mesma mesa de Putin. É certo que, depois, nas comemorações dos 70 anos do Dia D, Putin recebeu várias convites para encontros bilaterais («business obliges...»), mas o sinal de isolamento foi dado.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»