Já por aqui tínhamos escrito que a aproximação entre Washington e Teerão, iniciada desde a eleição de Rohani como presidente do Irão, e reforçada com o discurso de Barack Obama na última Assembleia Geral das Nações Unidas, tinha tudo para ser a grande história diplomática dos últimos anos.

O histórico acordo consumado, neste fim-de-semana, em Genebra, confirmou que essa aproximação não era meramente retórica e baseava-se numa plataforma de interesse mútuo.

A Administração Obama e o governo Rohani viram uma relação de «win-win» em chegarem a acordo: os EUA e as restantes potências internacionais asseguram que o Irão não chegará a ter armas nucleares; os iranianos conseguem legitimar o seu «programa nuclear para fins pacíficos», garantindo assim propósitos internos, não recuando demasiado (o que seria para Rohani particularmente delicado, perante os seus opositores mais radicais em Teerão) e, acima de tudo, aliviam um conjunto de pesadas sanções económicas a que estevam sujeitos.

Informações de fortes norte-americanas, libertadas na imprensa internacional desde a madrugada de sábado para domingo, confirmam que havia «negociações bilaterais secretas, desde o verão, entre responsáveis políticos norte-americanos e iranianos».

Essa indicação confirma, sobretudo, duas coisas: a eleição de Rohani, em junho passado, foi o ponto de viragem; um acordo era algo desejado pelas administrações de Washington e Teerão, numa fase em que ambas passam por dificuldades políticas internas.

Barack Obama, a passar por um dos momentos mais sombrios da sua presidência (com níveis de popularidade nalguns estudos abaixo dos 40 por cento), volta a mostrar que tem na frente externa um dos seus pontos mais fortes.

O Presidente defendeu sempre o diálogo com Teerão como forma de responder a um dos principais objetivos da política externa norte-americana: travar a «grande ameaça nuclear iraniana». A arte negocial de John Kerry terá feito o resto.

Desse ponto de vista, esta foi uma enorme vitória para Obama, independentemente de se concordar ou discordar ou daquela concessão a Teerão.

O primeiro grande sinal veio dos eleitores iranianos que, contra todas as previsões, elegeram em junho passado o candidato mais moderado.

Para a capacidade de liderança externa da Administração Obama, o Acordo de Genebra foi também uma excelente notícia.

Numa altura em que se começa a duvidar da durabilidade do «poderio americano no Mundo» (sobretudo com a resolução de Putin na crise síria), os EUA voltaram a ser o ás de trunfo numa negociações que incluiu também os chefes da diplomacia de França (Lauren Fabius), Rússia (Serguei Lavrov), Reino Unido (William Hague), Alemanha (Guido Westerwelle), além, é claro, de John Kerry e Mohammad Javaz Zerif, os responsáveis diplomáticos de EUA e Irão.

A plataforma de Genebra juntou, assim, todos os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, incluindo a China, e até teve a aprovação pública do «ayatollah» Ali Khamenei, que numa fase inicial se havia oposto a negociações com os EUA, mas viu em Genebra a legitimação internacional do programa nuclear iraniano, visto em Teerão como «decisivo» para a sobrevivência do regime.

A grave situação económica do Irão (com elevado desemprego, sobretudo na faixa etária abaixo dos 35 anos) obrigava Teerão a obter algo parecido com isto. Um alívio nas sanções era uma urgência para Teerão.

Israel ficou furioso com o que saiu de Genebra. O governo de Netanyahu vê neste acordo uma ajuda das potências internacionais, sobretudo dos EUA, da continuação do atual regime iraniano e exigia o fim de qualquer programa nuclear em Teerão.

Na grande política internacional, a arte está em conceder e, mesmo assim, sair vitorioso.

Obama e Rohani que o digam.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca