A Ucrânia e Gaza, dois casos cada vez mais graves e bicudos, quase nos estão a fazer esquecer que o Iraque está em escalada de desmembramento, na iminência de ficar sob controlo do ISIS.

O mundo está perigoso: cada crise parece mais ameaçadora que a anterior.

Israel decide avançar para ofensiva terrestre em Gaza, o balanço de vítimas civis é enorme.

O cessar-fogo «de 72 horas» em Gaza, acordado por Israel e o Hamas, durou apenas duas horas, com os dois lados a acusarem-se mutuamente de bombardeamentos que causaram 40 mortos em manhã de suposta trégua.

Muitos vêem nesta escalada uma consequência da redução do poder americano e a emergência de novos atores regionais.

Em entrevista a Charlie Rose, na Bloomberg TV, Hillary Clinton comenta: «Preferia que Israel não invadisse Gaza. Negociei o último cessar-fogo, em novembro de 2012. Rockets «choviam» sobre território israelita. Tivemos um debate interno sobre se os EUA deviam envolver-se diretamente. Reuni com Netanyahu e expliquei porque é que os EUA achavam que Israel não devia fazer a invasão. Neste caso, há grandes diferenças. A liderança do Egito mudou. O tipo de ameaças e de armas mudou. O número de mísseis aumentou. Até são usados drones. Quando se anunciou o cessar-fogo, o Egito disse imediatamente disse sim, o Hamas disse não. Não é uma resposta fácil dizer se concordo com a invasão de Israel. Preferia que não estivesse a acontecer».

Kerry não tem sido o ás de trunfo de que esta crise precisava do ponto de vista diplomático. Apesar da atual administração americana ter mantido o apoio e financiamento a Israel, os israelitas não confiam em Obama.

O agravamento do número de rockets lançados pelo Hamas sobre território israelita, e o aumento dos túneis construídos (mais de 30, três milhões de dólares cada um), criaram um cenário insuportável por Telavive.

A desproporção desde a escalada de violência (perto de 1500, quase todas civis, nos palestinianos; pouco mais de 60, quase todas militares, no campo israelita) coloca Israel numa situação muito delicada.

Netanyahu promete levar esta ofensiva até às últimas consequências: «Os túneis têm que ser todos destruídos», garante o PM israelita. Continua com apoio da opinião pública de Israel, que está simplesmente farta de levar com rockets e ter que fugir para os abrigos todos os dias.

Muitos israelitas lembram que, enquanto o Hamas parece usar a população como «escudo humano», Israel faz tudo para manter o número de vítimas civis quase nulo no seu território, graças aos sistemas de alerta e abrigo.

No Leste da Ucrânia, Putin joga de forma perigosa. O agravar das sanções euro-americanas apenas levou o líder russo a mudar de estratégia, virando-se para mercados asiáticos.

Em artigo no «Público», Jorge Almeida Fernandes aponta: «Vladimir Putin está a cometer demasiados erros de avaliação, o que é perigoso. A tragédia do avião da Malásia mostrou os riscos da sua política ucraniana e da perda de controlo sobre os bandos «separatistas». A seguir, perdeu a oportunidade de contribuir para uma desescalada sem perder a face. Está agora confrontado com uma perspetiva de sanções mais duras, que poderão constituir uma séria ameaça para a economia russa».

O abate do avião mudou tudo na evolução da crise ucraniana. Os mortos do voo 17 endureceram a atitude ocidental, atenuaram as divergências entre a UE e Washington sobre as sanções a aplicar à Rússia.

A oligarquia russa, mesmo a que se situa demasiado próxima da corte de Putin, não deseja o agravar da tensão com o Ocidente.

É uma questão de racionalidade: a elite endinheirada russa precisa dos europeus e dos americanos para avolumar riqueza.

Faz sentido que Putin prossiga o caminho do endurecimento? O debate parece já correr na sociedade russa, longe de ser democrática, mas com tensões internas que a crise ucraniana faz alastrar.

O Presidente Obama insiste em garantir que esta não é a «Cold War II». Mas às vezes parece.